Amigo de fé e irmão camarada, o Daniel Pitta já colaborou no Guaci outra vez e é um dos nossos grandes amigos. Além disso, sempre tá levantando ótimas dicas pra gente. Dessa vez ele reuniu algumas coisas para inspirar o pessoal que acompanha o Guaci. É muita alegria, muita coisa cabulosa e muita curtição.

O julgamento de Gil em Floripa
Uma das coisas de que mais gosto a respeito desse blog é o quanto o que aqui se discute me afeta e me estimula. Esse blog é energético – por aqui passam chispando centelhas, luzes se acendem – e bom mestre – caminhos se acham, se abrem, lições se dão recebendo. Então um gosto meu é devolver, partilhar.
Queria sugerir a série “Encontros”, da Azougue Editorial. Por enquanto, só pude ler dois livrinhos, o do Vinícius de Moraes e o do Gilberto Gil. Mas, pelo que os dois apresentam, os outros devem também valer muito o investimento na leitura. Especialmente o do Gil, que é um livrinho construído por entrevistas posicionadas sempre em momentos chaves da trajetória desse homem bem diverso, múltiplo. Há o encontro com os Mutantes (“Serginho tocava indiferentemente Bach, Beethoven , iê-iê-iês e rocks de Elvis Presley, para ele era a mesma coisa.”), com o mundo no exílio em Londres, com o que Miles Davis pós-Bitches Brew lhe mostrou…
Mas há também as crises criativas, as encruzilhadas, o início da experiência política em Salvador, a década de 90 e o trabalho à frente do Ministério da Cultura. Tudo visto sempre com muita lucidez, com uma clareza de quem confia no instinto, nos caminhos da vida. Mas o que mais me emocionou no livro foi a matéria sobre a prisão por porte de maconha durante uma turnê dos Doces Bárbaros, em 1976. Só da gente entender o que eram os Doces Bárbaros e o que aqueles artistas queriam com o projeto, e a isso juntar o fato em si da prisão, da tocaia subpolicialesca, da sede de ver o justo cair – meteram o cara num sanatório! –, já diz muito sobre o Brasil da época: um contraste forte entre luz e escuridão. Selecionei dois trechos que achei muito legais, ambos vividos dentro do “Instituto São José”:
“(fulano) trouxe um gravador e deixou no apartamento de Gil. Chiquinho (o baterista dos Doces Bárbaros) colocou uma gravação de shows antigos e vários pacientes ficaram ouvindo. Um deles parecia mais ligado que os outros. Depois de ouvir ‘Refazenda’ várias vezes, se levantou, parou defronte de uma grande mangueira, e falou rapidamente:
- Venha cá, venha cá! Isto é feito de abacateiro?”
“… de todas as manifestações de carinho, nenhuma emocionou tanto Gil quanto uma visita recebida na tarde de domingo no Instituto São José. Ele tinha acabado de jogar o I-Ching. A resposta foi muito clara: Fogo. Ele comentou comigo, enquanto descíamos juntos com Hamilton para gravar sei depoimento:
- Fogo é luz, é brilho, muito bom…
O porteiro avisou Gil que algumas pessoas queiram falar com ele. Entramos na pequena sala de visitas da clínica. Ali, esperavam quase quarenta pessoas. Foram abrindo passagem e Gil ficou no centro do grupo. Em sua frente, luminosa no seu úlitmo mês de gravidez, linda na sua pureza de mãe, uma mulher iniciou um diálogo com Gil.
E ela, que carregava um menino no ventre, pediu justamente que definisse o que era uma criança. Ao seu lado, olhando para Gil, estavam ainda sete crianças. Gil olhou para elas, fitou a mulher, como quem dissesse “eis aí ao seu lado, eis aí dentro de ti a magia do que me perguntas: Olhe e verás”. Depois de um pequeno silêncio, ele começou a falar:
- A criança é justamente aquilo menos definível. É aquele ser que vem do desconhecido. É aquilo que nos dá a certeza de que não existe morte, de que tudo continuará existindo.
E ele falou muito mais e muito mais ainda lhe foi perguntado. No final todos se beijaram, e uma preta velha que na entrada eu não tinha percebido, abraçada a ele aplicou-lhe alguns passes.”
…
Ando ouvindo muita música africana, desde a ritualística até rock, psicodelia, enfim, música popular moderna. Nessa última, um cara que me emocionou bastante foi o Thomas Mapfumo, que trouxe a pipoca pra modernidade – em vários aspectos – transpondo ritmos de instrumentos tradicionais para a guitarra elétrica. Essa música do vídeo é da época da eleição do Robert Mugabe e marcou o fim do controle da minoria branca da Rodésia sobre a população do Zimbabwe. O disco de onde ela foi tirada reflete esse momento frágil, tênue de êxtase e esperança coletiva, a celebração de uma nova manhã (bem, todo mundo sabe no que deu o governo Mugabe…). Ouçam aí:
Esse outro vídeo é de uma música do Assagai, que nada mais era que os Blue Notes/Brotherhood of Breath sem o Chris MacGregor no piano… O que falar de uma banda com Louis Moholo, Mongezi Feza e Dudu Pukwana? Só pode ser coisa de primeira:
Abração!

25/10/2009 at 19:30
Pô, Daniel, que texto lindão. Anotada a dica. Aliás, gosto muito da música que o Gil fez pras enfermeiras do Hospício. Abração!
26/10/2009 at 16:16
Arrasaste! Fiquei mais fã do Gil. hehe. beijo!
26/10/2009 at 22:11
No manicômio judicial e no ministério da cultura…
Nada como umas décadas após as outras.
27/10/2009 at 8:17
Maria Aparecida, porque apareceu na vida
Maria Sebastiana, porque Deus fez tão bonita
Maria de Lourdes
Porque me pediu uma canção pra ela
Carmensita, porque ela sussurou: “Seja bem-vindo”
(No meu ouvido)
Na primeira noite quando nós chegamos no hospício
E Lair, Lair
Porque quis me ver e foi lá no hospício
Salete fez chafé, que é um chá de café que eu gosto
E naquela semana tomar chafé foi um vício
Andréia na estréia
No segundo dia, meus laços de fita
Cintia, porque, embora choque, rosa é cor bonita
E Ana, porque parece uma cigana da ilha
Dulcina, porque
É santa, é uma santa e me beijou na boca
Azul, porque azul é cor, e cor é feminina
Eu sou tão inseguro porque o muro é muito alto
E pra dar o salto
Me amarro na torre no alto da montanha
Amarradão na torre dá pra ir pro mundo inteiro
E onde quer que eu vá no mundo, vejo a minha torre
É só balançar
Que a corda me leva de volta pra ela:
Oh, Sandra
27/10/2009 at 11:15
http://www.gilbertogil.com.br/sec_disco_player2.php?id=130&numero=6&acao=play
27/10/2009 at 12:42
essa coleção Encontros é fantástica, Dani. O do risério e do Zé Celso são muito fodas também. Do Darcy Ribeiro nem se fala!
28/10/2009 at 9:38
pessoal, conforme eu postei anteriormente está acontecendo em Brasília, promovido pelo Leandro Fortes, um encontro de blogueiros que hoje fazem um movimento de resistência a grande imprensa. Ai vai o link da palestra de segunda com o Paulo Henrique Amorim.
http://www.paulohenriqueamorim.com.br/?p=21080