
Uma coincidência feliz fez com que o livro La folie Baudelaire do escritor e editor italiano Roberto Calasso caísse em minhas mãos na hora certa. Quando eu tento entender um certo tráfico de imagens a contaminar a história da arte e enquanto estudo loucamente a produção visual parisiense do século XIX, boas almas me apresentaram a este livraço.
Nunca havia dado bola para os outros livros do autor e agora vou correr atrás. Nesse volume, ele trata da escrita de Baudelaire como uma descrição — no sentido do que os gregos chamavam de ekhphrasis. Mostra a importância que as outras obras tiveram na sua escrita, o modo como ele mobilizava esse saber de maneira fluída acabou por ajudar a definir algumas formas de pensar do século XIX para a frente.
Logo no início do livro ele conta:
Baudelaire não queria criar do nada. Sempre havia necessidade de elaborar um material pré-existente, uma fantasmagoria qualquer, vista em uma galeria, em um livro ou pela rua, como se a escritura fosse, antes de qualquer coisa, uma transposição de um registro a outro da forma. De tal maneira, surgem algumas de suas frases perfeitas (p.25).
Mas para se aproximar das coisas do mundo, o poeta mobilizava uma série de idéias, em um tráfico tão intenso que Calasso compara a uma alucinação, um sonho. Não é por acaso que o livro tem o título que tem. La folie se refere tanto à loucura, como a um pavilhão de divertimentos, um circo.
Calasso nos conta sobre a formação das idéias de Baudelaire como se encenasse isso. O autor é visto pensando, mobilizando suas leituras, copiando, bem interpretando e mal interpretando os outros autores no momento em que se depara com os outros objetos e fenômenos da modernidade.
É esse tráfico de idéias, seu trânsito amalucado que interessa Calasso. O autor mimetiza esse modo de pensar, que atribui a Baudelaire, em uma peculiar encenação da história das idéias. Segundo ele, essa relação menos rígida criou “o ensaio moderno”. Anos depois, Theodor Adorno procurará tal relação história e dinâmica dos conceitos ao criticar a idéia de sistema filosófico e celebrar o ensaio. Segundo o pensador alemão, o ensaio:
“assume em seu próprio proceder o impulso anti-sistemático e, sem cerimônias, introduz ‘imediatamente’ conceitos tais como os recebe e concebe” ou “O ensaio exige mais que o procedimento por definições, a interação de seus conceitos no processo da experiência espiritual. Nesta, eles não constituem nenhuma continuidade operacional e o pensamento não avança unilateralmente, os momentos se entretecem como num tapete” (Adorno, “O ensaio como forma”, pp. 176-7)
No diálogo, Calasso passa de um lugar a outro. Das visitas aos salões de arte à leitura e devoção à Stendhal, da contraposição de Ingres a Delacroix às formas da analogia e da imaginação, que Baudelaire enxerga como o verdadeiro pensar. Essa forma do verdadeiro pensar é relacionada com o tempo, com o gosto e com os códigos de cada um. Mas no livro, nem sempre essa frouxidão atua em favor de dessubstancializar os conceitos. Isso, aliás, é o melhor do livro. Ele trabalha com a idéia que ao se deparar com os objetos, muitas vezes Baudelaire cometia enganos e trocava alhos por bugalhos. Melhor que isso, esses erros, mais tarde revelavam-se questões filosóficas fortes. Geradas pela má interpretação e pelos plágios feitos fora de lugar.
Segundo Calasso, “toda a história da literatura pode ser vista como uma sinuosa guirlanda de plágios”. Na hora de fazer história da arte, os escritores franceses do século XVIII e do século XIX, por exemplo são mostrados como copistas mordazes dos especialistas italianos. Mas de um autor para o outro, a história se torna um telefone sem fio. Calasso afirma que o que encantou Baudelaire na matéria foi uma sucessão de plágios apresentados de maneira sublime por Stendhal.
O trecho em que Calasso nos mostra o fim dessa cadeia é muito bonito, vejam só: “Stendhal saqueou Lenzi para economizar certas incumbências cansativas (descrições, datas, detalhes). Baudelaire, pelo contrário, se apropriou de passagens de Stendhal por devoção, mas de acordo com a regra que diz que o verdadeiro escritor não pede emprestado, mas rouba.”

Gustave Courbet, "Retrato de Charles Baudelaire" (1848 - 49)
É dessa devoção de um autor por outro que sai uma das melhores histórias do livro. Segundo Calasso, Baudelaire encontra a idéia mais convincente de beleza nas notas italianas do seu romancista predileto. Baudelaire encontrou em uma definição de Stendhal a melhor caracterização para o belo artístico.
Em suas notas italianas, o romancista chamara a beleza de “promessa de felicidade”. No entanto, quando Baudelaire se apropriou da equação, não nos avisou que a época Stendhal não falava de nenhuma reflexão metafísica, mas da beleza das moças de Milão. Diante de tal exuberância, a beleza era promessa de felicidade sexual e afetiva. Promessa de muita alegria e descontração. Mas Baudelaire superinterpretou o trecho e viu sabedoria na excitação de Stendhal.
Calasso mostra como Baudelaire transformou o que era beleza em Belo. E fez dessa idéia uma discussão moderna. Assim, um comentário maroto de Stendhal se converteu em um sério juízo de matizes platônicos. Mas sem ironia, Calasso constata que o engano ao longo dos tempos pode ser tratado como uma questão estética legítima do século XX, como se um pacote extraviado encontrasse um destino receptivo. E um dos destinatários não foi Adorno? Que tratou da questão de uma beleza esética que não se identifica com o seu conceito.
Isso, porque Calasso nos mostra a beleza desse papo cheio de lacunas e enganos. Segundo ele, até os versos das Flores do mal são compostos a partir das idéias que Baudelaire transpôs ou saqueou de outras obras. Esse era o seu modo de criar. Essa transposição migrava de um lugar para outro. Depois foi chegada a vez dos outros tomarem as suas idéias, corretas ou não e figurar a sua época. E um bando tomou as formulações de Baudelaire de peito aberto, para acertar e para errar.
16/07/2009 at 20:23
Esse livro dizem que é muito bom. Acredito que esteja no mesmo universo da sua pesquisa.
http://www.amazon.com/Manet-Baudelaire-Photography-Book-1/dp/0773456953
Fica a dica.
02/08/2009 at 12:16
Como estudo italiano,me obrigo a assistir aos progrmas da RAI. Neste domingo o entrevstado era o autor/ editor Roberto Calasso. O que discutiram sobre o livro, tanto sobre os artistas ( pintores e escritores ) da época da narativa, bem como do entrelaçamento dos fatos/ personagens com a cidade de Paris, me fascinaram. Gostaria muito de obter este livro no Brasil. Sabe em que site de vendas o encontraria?
Agradeço muito sua atenção.
Dione Stamato – 02/08/2009
02/08/2009 at 14:58
Dione, acho os livros em italiano aqui:
http://www.unilibro.it/find_buy/Scheda.asp?sku=12934837
espero que dê tudo certo e muito obrigado pela visita