Moda e cultura, é bem isso

Moda e cultura, é bem isso

Uma das coisas que mais me entristece no Brasil é a imprensa musical. Principalmente por que ela é majoritariamente formada por gente que dá pouca bola pra música. No geral, quando são bem intencionados, eles gostam muito de falar de MP3, mercado de música, participações que um músico fez no disco do outro e sobre como tudo anda muito bem.

Quando a intenção é ruim – sem esvaziar o lugar -, eles só macaqueam a imprensa internacional e o release de promotoras de festivais, de casas de show descoladas e de assessorias da próxima sensação da indústria musical da Rua Augusta. Trabalham em favor dos cases e em busca do “target selecionado e diferenciado” que seus artistas merecem.

O chato é que pouco se fala do som. Outro dia, a Trip publicou uma matéria sobre a nova canção brasileira em que o leitor entra e sai do texto sem saber o que as tais promessas compunham, interpretavam ou produziam! No final, a matéria é mais uma narrativa sobre como esses eventuais talentos são amigos entre si e tocam em um mesmo circuito. É um currículo de participações dos músicos nos discos dos outros.

Pouco, pouquíssimo se fala sobre a música que cada um toca. Nem mesmo o fascínio que o trabalho de um causa no outro é abordado. É triste, mas o novo na música brasileira só ressoa em matérias mudas e surdas. Os jornalistas se recusam a falar sobre o que encanta eles, sobre a sonoridade desses músicos e do que se tratam as letras. É tudo uma piada interna para a circulação nacional.

A Bravo! já havia feito coisa parecida, mas pelo menos se esforçava pra falar do tipo de sonoridade que cada um dos músicos. Mas no final, a mensagem era parecida com a matéria posterior: os músicos brasileiros vivem em um imenso Facebook de trocas de participações e a sua arte se define por isso.

E eu não peço análises críticas bem elaboradas sobre trabalho musical não. É trabalho básico de reportagem. É só falar por exemplo que o Romulo Fróes começou sua carreira solo bebendo da influência de Nelson Cavaquinho, Batatinha e outros sambistas melancólicos, encontrou inspiração na guitarra de Lanny Gordin e hoje trabalha na seara da MPB.

Ou então falar do fascínio de Catatau e do Cidadão Instigado pelos efeitos de guitarra e por sons batidos de sintetizador. Perguntar de seu ouvido aberto pra música romântica e pra alguns guitarristas como o Robert Fripp ou o Santana. A ligação do Junio Barreto com a música do Edu Lobo, que também buscou elementos de seu cancioneiro em Pernambuco. É só dar uma escutadinha e buscar as dúvidas.

Nem precisa ser exclusivamente uma busca de referências. É só perguntar o que vier a cabeça. Mas a matéria de música tem de se interessar mais por música e menos sobre a amizade entre os músicos.

Mas nada se pergunta. A imprensa é surda, muda e triste. Quando eu leio esses diagnósticos gerais sobre o que vem por aí só sinto vontade de continuar escutando as mesmas coisas. Um sentimento completamente injusto com as coisas boas por aí, inclusive nessas matérias sem som.

Não reclamo mais e volto a falar de uma série de coisas que valem a pena. E outra, em raros espaços de informação, independente das grandes editoras, existe sim a possibilidade de falar de música.

E, sem mutismo, umas coisas bem boas:

Aperta o play aí em cima e escute o Pumu tocar Mosaico.

E não, eles nunca gravaram juntos…