“Everybody knows that our cities were built to be destroyed“,
Caetano Veloso, Maria Bethânia.

Parabéns Johnny Alf
Se não fosse só uma dessas relações que passam pela minha cabeça, a letra de Caetano Veloso poderia muito bem sintetizar a trajetória do genial cantor, pianista e compositor Johnny Alf, que completa 80 anos hoje e merece todas as homenagens possíveis.
No geral, as matérias sobre ele sempre registram sua influência sobre a bossa nova, como se Alf fosse um apêndice imediato (embora anterior) dos músicos da zona sul carioca. Um intróito. Eu gosto de pensar a trajetória de Alf de uma maneira um pouco diferente. E a matéria do ótimo Pedro Alexandre Sanches, na Carta Capital, só fortaleceu a minha convicção.
Artistas como Johnny Alf, Lúcio Alves, Dick Farney,Leny Andrade, Dolores Duran trazem o canto final de um formato de canção que estava morrendo.
Nos Estados Unidos, o jazz tradicional e a grande canção, a era dos standards também caducava no final dos 50. Em pouco tempo, o formato do jazz tradicional seria solapado pelo jazz rock e principalmente pela vanguarda. A canção popular com grandes orquestras e rapazes comportados como Pat Boone também soaria saudosista em menos de cinco anos depois da explosão do rock n’ roll.
Se até hoje existem Diana Kralls da vida mantendo esse formato vivo, isso tem muito mais a ver com o saudosismo do público e a força com que a indústria cultural recicla as formas e os seus significados do que com a permanência de um formato musical. O sentido de tal gênero se perdeu.
No Brasil, esse gênero de canção inspirada nos standards do jazz, ganhou força nos anos 40 e 50. Uma era onde o rádio já dividia espaço com o cinema e as trilhas e as canções dos longa metragens se tornaram uma influência primordial na música.
O samba canção, ou samba de dor de cotovelo, era composto por uma geração que tinha vivido sob a política de boa vizinhança que admirava e aprendia a tocar com o jazz. Mesmo assim, esses músicos carregavam a influência dos grandes compositores da rádio.
Um filho dessa geração é Johnny Alf. Preto, homossexual e filho de uma empregada doméstica viúva, ele nunca se identificou com o glamour desse jazz de cinema. Sempre preferiu os temas e os personagens marginais, as histórias de amor sem solução. Nunca foi desses músicos de holofote. Parecia ter escolhido o piano nos bares e boites como um espaço de reclusão.Uma coisa muito curiosa para um músico. Talvez por isso sua música tenha sido eternizada e admirada por todas as gerações posteriores.
O que eu defendo aqui é que mais que ninguém, Johnny Alf era consciente de que essa música anunciava o final dos grandes arranjos da rádio e da maneira de construir canções como elas eram construídas até então. Essa era da canção jazzística e essencialmente noturna que a bossa nova escondeu em dias de luz e festas de sol.
A composição dele que eu mais gosto é Eu e a Brisa, de 1967, a letra já é um melancólico adeus a uma música que se vai. Não deixa de ser irônico o fato da canção ter sido desclassificada no mesmo Festival da Record que celebrou Ponteio, de Edu Lobo, Roda Viva, de Chico Buarque, Alegria Alegria, de Caetano Veloso, e Domingo no Parque, de Gilberto Gil.
Eu e a brisa
Ah, se a juventude que esta brisa canta
Ficasse aqui comigo mais um pouco
Eu poderia esquecer a dor
De ser tão só pra ser um sonho
Daí então quem sabe alguém chegasse
Buscando um sonho em forma de desejo
Felicidade então pra nós seria
E, depois que a tarde nos trouxesse a lua
Se o amor chegasse eu não resistiria
E a madrugada acalentaria a nossa paz
Fica, ó brisa fica pois talvez quem sabe
O inesperado faça uma surpresa
E traga alguém que queira te escutar
E junto a mim queira ficarE, depois que a tarde nos trouxesse a lua
Se o amor chegasse eu não resistiria
E a madrugada acalentaria a nossa paz
Fica, ó brisa fica pois talvez quem sabe
O inesperado faça uma surpresa
E traga alguém que queira te escutar
E junto a mim queira ficar
E junto a mim queira ficar
20/05/2009 at 1:25
é interessante notar que pros cantores da noite dos anos 50 que se formaram no beco das garrafas, o jazz era um formato recorrente,mas não era o único porque eles tinham que cantar de tudo. A música italiana, os boleros de agustin lara, a canção francesa, eram genêros que estes artistas tinham que dominar e este ecletismo se refletia nos discos que eles gravavam.C antor- compositor me parece que haviam apenas dois, o Johnny Alf e a Dolores Duran que pra mim é disparado a mais importante figura feminina da música brasileira. As primeiras músicas do Johnny Alf, Céu e Mar e Rapaz de bem mostram que ele foi de fato um percurssor da bossa nova, porque sua música tem muito de jazz, mas também deve muito a grandes compositores brasileiros de piano como Custódio Mesquita e Ary Barroso (ilusão à toa a mim parece ser filha dessa tradição). Já a Dolores que nunca estudou música mas era uma compositora excpecional, pegou influência de todo lado, compos com Tom Jobim, fez bolerão rasgado e samba canção. Havia muita diversidade musical na época. Belo e elucidativo texto, Laurão…
20/05/2009 at 16:53
Lauro, bonito, que bonito!
Um cantor e compositor do adeus, é um modo lindo de definir o Johnny Alf. Inda mais sob a contradição (será?) de ele estar aí ainda, aos 80 anos, “gritando” sua discrição nos nossos ouvidos abarrotados de barulho.
Em tempo: obrigado pela menção honrosa que me coube!
20/05/2009 at 22:23
Oi Rodrigo, como sempre, seu comentário joga uma luz na conversa e renderia mais uma série de posts. Nessas horas eu queria estar mais perto de Brasília pra gente trocar mais idéias.
Mas, voltando ao que você falou, era bem impressionante como as pessoas eram abertas às canções de vários lugares do mundo e como essas canções dialogavam entre si. Será que é um efeito desse intercâmbiodas duas gran des guerras?
A música mexicana tb teve tanto efeito aqui, assim como seus melodramas, as comédias picarescas dos italianos…
Ao mesmo tempo, eu acho que o pós-guerra propôs uma convergência dessas estéticas que ia dar no início do que hoje nós iríamos conhecer como pop. E esse início do pop, na minha opinião sai de cena no Brasil com esses compositores da geração do Johnny Alf.
Mesmo em Rapaz de Bem e Céu e mar, eu acho que a síntese musical da Bossa nova só está esboçada. A idéia era mais usar acentuações e acordes do jazz no samba e do samba no jazz. Dá até pra identificar onde está o jazz e onde está o samba na canção.
João Gilberto faz dessa uma operação mais sutil e complexa, o que não tira em nenhum minuto a genialidade de Johnny Alf, Dolores Duran, Antônio Maria e companhia.
Acho a Dolores Duran impressionante tb viu Rodrigo. Tenho escutado demais. Mas na minha opinião, Carmen Miranda, mesmo sem compor, é a figura feminina mais impar e mais importante da canção brasileira. Mas isso renderia horas e horas de papo.
De resto fico muito feliz e honrado com a sua participação aqui viu Pedro. Acompanho de perto o seu trabalho na Carta Capital e fico mais feliz por ser jornalista ao ler seus textos. Nessa ápoca de jornalistas narcisistas e com tão pouco compromisso com a informação, é raro ver alguém escrever com tanto comprometimento e conseqüência ainda mais na área cultural. E a sua matéria sobre o Johnny Alf foi muito inspiradora pra mim.
Grande abraço.
21/05/2009 at 8:49
interessante que a Dolores também teria completado 80 anos este ano se estivesse viva. Pode ser que eu esteja errado mas me aparece que são os dois e mais o Tito Madi os primeiros cantores compositores da música brasileira. E acho que essa coisa do crooner que também compoe e leva pra música com sua assinatira autoral as múltiplas informações do que canta, vai ter no Milton Nascimento e no Roberto Carlos seus mais ilustres representantes.
21/05/2009 at 8:49
me parece,obviamente..
21/05/2009 at 11:58
Lauro, o texto ficou muito bonito mesmo. Acho que existe hoje, por conta do gosto dos estrangeiros, um ponto de vista esquisito sobre o tal do samba-jazz. Parece que ele é uma coisa que não é. Uma sofisticação, algo do gênero. Não consigo entender quem acha o Meirelles mais arranjador que o Radamés ou o Ary Barroso. Deve ser um problema meu. Mas o seu texto é outra história.
Sobre ele, queria comentar duas coisas. A primeira é que um outro tipo de vida urbana aparecia junto com esse tipo de poética do Johnny Alf. O otimismo tanto dele quanto do Tom Jobim com a música brasileiroa parecem vir daí. O que achei bonito no seu texto é a interpretação da melancolia do Johnny Alf. Muito bom.
Por fim, essa interpretação do Caetano (acho que está no Noites do Norte ao vivo) é muito bonita. O Márcio Vitor faz uma percussão que deixa a música muito diferente.
21/05/2009 at 11:59
Quase me esqueço, mas é uma honra contar com um rol de comentaristas dessa estirpe. é só colocarmos alguma coisa aí que eu aprendo pra chuchu.
Obrigado pessoal
21/05/2009 at 12:27
Sobre as mulheres na música brasieira: Acredito que aqui, elas sempre tiveram um peapel central Uma das compositoras que deu forma aos ritmos nacionais foi a Chiquinha Gonzaga. Por isso, não deixa de ser curioso que a epigrafe da postagem leve o título de uma cantora que se interessou pelo samba-canção por motivos diferentes do pessoal da bossa nova. Aliás, foi no que os bossanovistas viam como os defeitos do gênero que a Bethania se interessou. Seu lado teatral, trágico. Não em harmonias mais complexas.
29/10/2009 at 10:04
Gostaria apenas de colocar que a desclassificacao de “Eu e a Brisa” no Festival da Record, em 1967, apenas refletiu a busca da “novidade musical”, ja que a referida composicao, embora genial musicalmente, simbolizava o que ja estava estabelecido, e nao o pioneirismo. Alem disso, vejam algumas concorrentes: Ponteio, Roda Viva, Viola Enluarada, O Cantador, Domingo no Parque, Alegria, Alegria…
Tarefazinha dificil a do juri, nao acham?