A regulamentação do uso, e as iniciativas de uso, do espaço social – rural, urbano e virtual – é um dos temas cruciais do século XXI. O espaço é, literal e metaforicamente, um dos principais campos de batalha da guerra entre – para usar, num novo sentido, uma distinção antiga mas útil – os proponentes de uma sociedade aberta e os defensores de uma sociedade fechada.

Um binômio que atravessa esses três campos – rural, urbano e virtual – é o par formado pelos conceitos “cercamento” e “ocupação”. O sentido clássico da noção de “cercamento” remete, como aprendemos nas nossas aulas de história, ao processo de formação do capitalismo – mais especificamente, à acumulação primitiva que consistiu na transformação da “natureza” (a terra) em “civilização” (capital). Os cercamentos do século XVII são os avós do processo de privatização do espaço que parece, hoje, ser a tendência social, econômica e política dominante. A privatização do espaço urbano pelo mercado imobiliário e a regulamentação do espaço público na base do “não pode” pelos governos conservadores (DEM-PSDB) são exemplos desses novos cercamentos.

A “ocupação”, por outro lado, remete à resistência aos cercamentos – um misto de desobediência e inovação, de desbunde anárquico e defesa de princípios elevados: direito, liberdade, autonomia. No Brasil, MST e as diversas frentes dos movimentos de moradia nas cidades carregam, há tempos e com sucesso, essa bandeira da ocupação.

O Seminário Internacional do Fórum da Cultura Digital, que está rolando – hoje e amanhã ainda tem programação intensa de debates, exibições e shows – na Cinemateca Brasileira (confira serviço, abaixo) leva essa batalha para o espaço virtual. O Fórum é uma das etapas de elaboração de marcos para as políticas públicas de cultura digital, e uma de suas bandeiras é também enfrentar o novo cercamento que tem ameaçado transformar uma certa “natureza” (nesse caso, a cultura e a tecnologia livres) em – como sempre, no sentido antipático, branco, masculino, cristão e capitalista da palavra – “civilização” (ou seja, em mercadoria e em espaço regulamentado segundo a lógica da proibição).

A própria utilização que os organizadores do Seminário estão fazendo do espaço da Cinemateca Brasileira encena essa disputa. Aqui também predomina a lógica da ocupação: quem conhece a Cinemateca sabe que é um espaço incrível, mas sub-aproveitado. Os produtores espalharam redes e almofadões coloridos, mesas e cadeiras onde em geral predomina o clima sóbrio, de velório, característico dos espaços culturais paulistas geridos por socialaites tucanos(as). Um espaço antipático, concebido para receber eventos da”cultura oficial” para a meia dúzia de culturetes endinheirados(as) da cidade. Uma das subversões mais interessantes do uso do espaço foi a abertura da sala (privativa) da diretoria da Cinemateca para uso da produção do evento. Mesmo quem trabalha na Cinemateca raramente tem a chance de entrar na bela sala construída ao lado da nova sala de exibição da instituição.

Nova sala da Cinemateca: muito bonito, mas... cadê as pessoas?

As diferentes concepções e formas de uso do espaço resumem as disputas políticas em jogo hoje no Brasil. Assim como o espaço da cidade deve ser público, aberto e permeável às iniciativas das pessoas, o espaço virtual da rede mundial de computadores deve ser regido por esses mesmos princípios. A defesa da liberdade na internet não é bandeira apenas dos garotos e garotas fissurados em novas tecnologias; perder a batalha contra os cercamentos nesse campo é ceder espaço político para a onda conservadora. Bora ocupar os espaços.

Seminário Internacional do Fórum da Cultura Digital

De 18 a 21 de novembro de 2009

Local: Cinemateca Brasileira

Lgo. Senador Raul Cardoso 207

Vila Mariana São Paulo – SP

Programação

20/11 – 6ª feira

9h/17h
Credenciamento/ inscrição

9h/12h
Plenária de Infraestrutura – Sala Petrobrás

Seminário de Comunicação – Sala BNDES
Palestrantes:

. Jean Burgess (pesquisadora da Universidade de Queensland, na Austrália, e co-autora do livro “Youtube a Revolução Digital)

Ivana Bentes (professora da UFRJ)
Alex Primo (professor da UFRGS)
Anápuaká Muniz (Web Brasil Indígena)
Jamie King (produtor de ‘Steal This Film’ e criador da vodo.net)
Moderador: André Deak (curador do eixo comunicação do Fórum da Cultura Digital Brasileira)

Ações auto gestionadas – tendas do hall

13h/14h
Intervenção artística – tendas do hall

14h/17h
Plenária de Arte – Sala Petrobrás

Seminário de Economia da Cultura Digital – Sala BNDES
Palestrantes:

. Daniel Granados (Producciones Doradas)
. Pablo Capilé (Circuito Fora do Eixo)

Ladislaw Dowbor (Economista e professor da PUC-SP)
.
Ronaldo Lemos (Professor de direito da FGV-Rio)
. Juliana Nolasco (Coordenação de Economia da Cultura – MinC)
Moderador: Oona Castro (curadora do eixo economia do Fórum da Cultura Digital Brasileira)

Ações auto gestionadas – tendas do hall

a partir das 21h
Ação musical – lona de circo externa

21/11 – Sábado

9h/17h
Credenciamento/ inscrição

9h/12h
Transmissão da sala BNDES na Sala Petrobrás

Contexto Internacional da Cultura Digital – Sala BNDES
Palestrantes:
.
Raquel Rennó (pesquisadora de arte digital e integrante da Associaçao Cultural de Projetos em Cultura Digital ZZZinc, de Barcelona e do International Center for Info Ethics
, da Alemanha)
. David Sasaki (diretor do Rising Voices)
. Ivo Corrêa (Responsável pelas políticas públicas e governamentais da Google Brasil)
. Alfredo Manevy (Secretário executivo do Ministério da Cultura)
. Amelia Andersdotter (membro do Partido Pirata Sueco)
Moderador: Álvaro Malaguti (gerente de projetos da Rede Nacional de Ensino e Pesquisa- RNP)

Transmissão da sala BNDES nas tendas do hall

12h/14h
Encerramento

14h/17h
Cerimônia de encerramento – Sala BNDES
Entrega do resultado do trabalho realizado ao Ministro da Cultura, Juca Ferreira
Atividades culturais – lona de circo externa

Feliz dia da consciência negra com o Candeia (esse era de luta) em Partido Alto, de Leon Hirszman

Naquele ano, eu tinha certeza que o reconhecimento do Thinking Fellers Union Local 282 seria uma questão de tempo. Era a banda nova que eu mais gostava e mais ouvia (junto com o Cassiber). Tinha certeza que eles, Slint, Sun City Girls, Trumans Water e o Soul Junk, em um prazo curtíssimo, seriam descobertos e transformados em referências roqueiras obrigatórias, como já havia acontecido com o Fugazi, o NoMeansno e o The Ex, por exemplo.

Até agora, só acertei dois da minha lista, mas uma boa matéria da vice me encheu de esperanças em relação ao grupo de Oakland (que aliás, já foi publicado aqui). No texto, o repórter Andrew Earles ainda dá várias bolas dentro, menciona o Supreme Dicks, Strapping Fieldhands e Dead C. Fala mal do Mr. Bungle e Primus. Só faltou incluir o Radiohead nesta lista negra, que é  feita a partir de uma designação cruel, mas eficaz para falar do midbrow indie rock.

O texto me fez lembrar que o meu gosto pelo rock, a música popular e as novidades vanguardistas do jazz e da música clássica veio da sensação de querer fazer uma vida nova, mais animada e interessante. Já vi muita gente associar esse gosto a gente que está a margem, quem não é aceito ou quem se isola. Não tinha nada disso. Eu não gostava disso por participar de um grupo diferente. Não achava que aquilo se alinhava ao bom gosto, aliás, estava pouco me fodendo para o bom gosto.

Todo mundo andava com meninos que gostavam de Skid Row, Death Metal e com outros que nem gostavam muito de som.

Não tinha nada a ver com isso, nem a ver só com música, cultura, arte. O ânimo passava por aí, mas o interesse maior era fazer coisas mais legais em um lugar onde tudo parecia meio sem graça. Não era auto complacência, sensação de deslocamento e nem a imagem de estar a margem, mas a sensação de participar de algo novo, desafiador e que ia contra tudo que havia de mais babaca (inclusive os estilos de vida e a participação em tribos juvenis).

Também não existiam aquelas bobagens de filme americano de vencedor e perdedor, herói e vilão, turma da mesa de cá e turma da mesa de lá. Era um monte de gente. Todo mundo convivia com todo mundo numa naice. Uns se contentavam com o que tinha na cidade, outros queriam mais. Quem queria mais não podia reclamar.

O mais legal é que esses meninos que circulavam comigo por lá, hoje estão por aí, são gente de primeira qualidade e continuam atrás de uma vida mais intensa, cheia de sumo.

Para comemorar, seguem músicas do conjunto:

(mais…)

O blog do Guaciara tem a honra de convidar a todos para sintonizar na TV Brasil nesse sábado às 23h45 para assistir a estréia do programa Ponto Brasil. O programa é coordenado pelo Leandro Saraiva, que é amigo da turma do Guaci e um cara que todos nós admiramos demais. Já assisti o primeiro episódio e me empolguei demais com a iniciativa de construir uma televisão com pessoas comuns a partir dos pontos de cultura e sem nenhuma condescendência.

Acho que a iniciativa vai além do produto e propõe uma construção de uma TV realmente pública e produzida em patamares que eu não conhecia mesmo. A Associação Imagem Comunitária, de BH, faz um trabalho que tem um pouco a ver, mas mais focada nos jovens.

Segue o convite do Leandro Saraiva para esse projeto que me empolgou demais:

Gostaria de convidá-los a conhecer o Ponto Brasil, um programa de TV, mas mais que isso, uma ação artística em rede, envolvendo mais de 100 Pontos de Cultura e Coletivos Audiovisuais. Uma co-produção TV Brasil e Minc/SCC. Estréia dia 21 de novembro, 23h45, na TV Brasil.

Até onde eu saiba, o Ponto Brasil é o primeiro programa feito assim, em rede, por uma enorme turma de 400 pessoas, espalhadas pelo país.

Mas o principal motivo para eu convidá-los a conhecer o programa é seu MÉTODO de construção. Se vocês tiverem interesse, verão no www.pontobrasil.org.br um formulário de projeto online, aberto a acréscimos e comentários dos participantes da rede, e uma sessão de apoio, com dezenas de trechos de filmes comentados, que servem de referências para as discussões colaborativas que vão dando forma aos projetos de vídeo (o site é uma plataforma de trabalho – não tivemos tempo para desenvolver o design, nem para aprimorar a navegação. Mas mexendo um pouco dá pra sacar como funcionou para os 400 participantes).

Isso não é um detalhe, é a alma desta experiência.

Ouvimos falar bastante da produção audiovisual dos Pontos de Cultura, mas ela é, via de regra, ainda ingênua, e há um apelo para sermos condescendentes com os resultados. No Ponto Brasil, através desse método de colaboração e crítica, nos propusemos a avançar na qualidade (criativa, ainda que a qualidade técnica tenha sido mantida também).

Somos contra o populismo audiovisual. Não acreditamos que distribuindo câmeras vão surgir novas expressões estéticas realmente relevantes. Um ambiente crítico exigente é condição importante para o aprimoramento artístico, e foi isso que buscamos no nosso método: todo mundo palpita, e lança mão das referências que sugerimos (sempre como leque de opções), ou de quaisquer outras que lhes pareçam importantes. Essa colaboração crítica e auto-crítica foi feita, em cada um dos 130 vídeos realizados (empacotados em 14 programas), buscando a clareza das formas audiovisuais que ia sendo propostas.

Como cada plano seria feito? Este era o debate (que, aliás, embasava o esforço de produçao colaborativa – quanto mais clareza de proposta, mais fácil o planejamento, até porque tínhamos somente 1 diárias para cada vídeo). Cada gravação foi feita em parceria com nossa equipe fixa e as equipes locais (não fizemos “oficinas”, planejamos e gravamos juntos, em parceria – foram 18 semanas de gravaçoes!)

Mas este trabalho, esta proposta, é em geral invisível. Acreditamos que se esta experiência do PB tiver continuidade, podemos contribuir de forma importante para o surgimento de novas visões na cena audiovisual, capaz de expressarem experiências de vida hoje fora de nosso espectro.

Nosso convite é para que vocês conheçam o trabalho. Nele, foram reunidos a centena de grupos já referidos, e a participação de um incrível leque de colaboradores (citamos, só como amostra, Vicente Carelli (PB), Cia do Latão(SP), MST, Ação Griô Nacional (BA), Coletivo Catarse (RS), Vila das Artes (CE), Museu da Pessoa (SP), Usina (AC), além de muitos orientadores regionais de grande qualidade (Cézar Migliorin, Regina Motta, Gustavo Jardim, Alexandre Veras, entre outros).

Vocês podem ver um pouco do Ponto Brasil aqui:

11 chamadas + promo em : www.youtube.com/pontobrasilorg

Primeiro programa (Cidades) http://www.pontobrasil.org.br/jx/taiser/0

A quem se interessar, podemos enviar dvds do programa pelo correio.

Abraço e muito obrigado,

Leandro Saraiva

(coordenador do Ponto Brasil – crédito, e carregamento de piano, dividido com Janaína Rocha)

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Undertones: “My perfect cousin”

Hüsker Dü: “Something i learn today”

Bo Diddley – “Hey, Bo Diddley” and “Bo Diddley”

Monks: “Complication”

The Fall: “I can hear the grass grow”(cover do The Move)

Boa a lembrança do Fabiano para os vinte anos das eleições de 89. Lembro como essa eleição foi importante na minha vida e na vida da minha família. Tinha só onze anos e também “votava”. Acho que por ser uma novidade, na época, as eleições tomavam conta do imaginário de todas as pessoas independente da idade, classe social e origem.

Lembro que eu morria de raiva do Caiado com o cavalo branco, que queria matar o Afif  que comparava o Lula com o muro de Berlim na horrorosa “Pula-lá”. O engraçado é que em meio à campanha presidencial o marco que separava a Europa socialista e capitalista seria derrubado também. Adorava ver o Brizola espinafrando a Globo e era espectador da Rede Povo. Não é à-toa que a cena mais lembrada dessa eleição ainda é o debate Lula e Collor na Globo e a briga entre Maluf e Brizola em outro debate na televisão. Essa foi a eleição em que a TV começou a contar mais do que nunca na campanha.

Além disso, lembro de ficar um tempo sem ver meus pais que acordavam cedo e voltavam tarde. Minha mãe cobria a eleição para um jornal e um rádio de Pouso Alegre e meu pai aproveitava todo seu tempo livre para fazer campanha. Ia comer marmita na vizinha e passava o resto do dia curtindo com o pessoal da rua. Falando da eleição e do candidato que eu ia “votar”. A Playboy na época fez uma enquete em que cada um dos candidatos falava o que gostaria de ser e lembro que o Lula respondia que quando era criança queria ser caminhoneiro.

O lance das pesquisas até então, pelo menos pra um menino de onze anos, parecia uma coisa muito incerta. Eu não botava a menor fé e, mesmo sem parar muito pra pensar nisso, achava que o Lula ia ganhar, mas via que na minha escola ninguém ia votar nele.

Eu e meu irmão, mesmo sem blog e nem nada já quebrávamos o pau com meia cidade em defesa da Frente Brasil Popular. O meu pai passou na lojinha do PT em BH e comprou bottons, o Tiago quis um do Lenin e eu quis um do comunismo. Os coleguinhas alimentavam os resquícios da ditadura e diziam que a gente ia ser expulso da 5ª série por ostentar aqueles símbolos proibidos até outro dia.

Na escola todo mundo ia votar em alguém. Em minha cidade, essa primeira onda Lula passou um pouco longe. Apesar da mobilização que ela criou e do fortalecimento da esquerda na cidade, o resultado eleitoral foi bem fraco.  Lula ficou em quarto lugar (atrás de Collor, Maluf e Covas).

No segundo turno, a situação foi um pouco melhor mas só um pouco. Mas a escala nacional da campanha e a maneira como ela “pegou” em todas as cidades acabou levando um pouco da movimentação pelas Diretas também para as cidades menores. Se o Brasil preza tanto a democracia hoje e tem uma situação um pouco melhor do que os outros países da América Latina. Apesar do desfecho dramático – me lembro o tanto que praguejei depois da apuração, era inacreditável que um babaca da Globo tivesse ganho a eleição –, 89 fez um bem danado pro Brasil.

Escrevam suas lembranças e vídeos marcantes da eleição de 1989 também.

Com muita honra e prazer, tenho colaborado sempre com a revista +soma. No último número, publiquei uma versão de um texto sobre dois dos artistas que eu mais gosto. Posto outra versão do texto, diferente da revista, que está linda e disponível tanto nas grandes cidades como para o download no site. Claro que a versão da revista é mais legal. Lá ainda tem ótimos artigos, como o que Mateus Potumati fez sobre o Itamar Assumpção. Mas quem ainda não viu, veja aqui:

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Rodrigo Andrade: "Paredes da Caixa" (2007)

No ano passado, volumes dedicados às obras de Paulo Monteiro e Rodrigo Andrade chegaram às livrarias. O livro sobre Monteiro acompanhou a primeira retrospectiva do artista, que aconteceu na Estação Pinacoteca, em São Paulo. Lá ele mostrou obras conhecidas e desenhos, guaches e esculturas inéditos, tanto na idade quanto na linguagem. Andrade também aproveitou o lançamento para exibir o seu filme: Noite no escritório. Para quem começou em um período em que diziam que não havia nada de novo sob o sol é um baita feito.

Os dois artistas vivem um período particularmente produtivo. Trabalham como nunca, desenvolvem novas formas de lidar com as linguagens que têm familiaridade e, no caso de Rodrigo Andrade, se aventuram por novas manifestações da arte; como o cinema.

Assim, além de recontar a história da obra, os livros indicam caminhos que estes artistas estão trilhando agora. Hoje em dia, a obra de um compartilha apenas algumas questões com a obra do outro. Apesar da origem comum, cada um tomou o seu rumo. Mas ambos lidam com uma forte presença da matéria, trabalham sobre um material viscoso e pesado. Além disso, o modo como eles tratam os elementos nos traz a impressão de uma obra que, por mais abstrata que seja, mantenha características da figuração. Se em Monteiro isso parece guardar alguma relação com o desenho e a caricatura, em Andrade, vem da definição espacial que suas formas, ao se relacionarem umas com as outras, realizam.

Geração 80

Retrospectiva de Paulo Monteiro na Pinacoteca do estado de São Paulo.

Mas tudo que foi dito até agora é pouco, o que os aproxima, de fato, é a origem deles e, mais do que isso, o sentido que eles deram para um tipo de arte que parecia condenar a renovação da linguagem: a pintura figurativa dos anos oitenta.

Acredito que o modo peculiar que um e que outro entendeu, encarou e respondeu aos impasses de alguns artistas daquela época, ajudou a definir os caminhos que Andrade e Monteiro seguiriam depois. Por se interessar por aspectos diferentes da pintura, que o trabalho deles se afastou tanto de uma matriz neo-expressionista.

Por isso, factualmente, é curioso que os artistas tenham publicado o livro no mesmo ano. Embora se dediquem a questões diversas, os dois se tornaram artistas na mesma época, no mesmo estúdio, trabalhando dentro da mesma linguagem. Fora que expuseram juntos mais de uma vez e, no início de carreira era comum que o trabalho de um fosse associado ao trabalho do outro.

Amigos de longa data, eles começaram desenhando quadrinhos. Na época de escola, publicavam os seus desenhos na revista Papagaio (em 1977). Desde muito jovens, gostavam de artes plásticas do mesmo modo que curtiam de desenhar histórias em quadrinhos. O interesse pelo desenho os aproximou da arte contemporânea.

Estudaram com o pintor Sérgio Fingermann, começaram a enfrentar as tintas. Enquanto isso, olhavam obras da tradição e do século XX até a retina doer. Na medida em que olhavam; pensavam e articulavam suas próprias imagens, a sua própria linguagem. Começaram a produzir seriamente, tornaram-se artistas.

Na época trabalhavam juntos no mesmo ateliê, a Casa Sete. Dividiam o espaço com outros ótimos artistas: Fábio Miguez, Carlito Carvalhosa e Nuno Ramos. Sobre papel craft, todos eles pintavam imagens um pouco cômicas e um pouco trágicas, começaram com o esmalte depois passaram a trabalhar com outras tintas.

O jovem Rodrigo Andrade

Rodrigo Andrade em 1985

A pintura neo-expressionista da época os influenciou, mas a influência maior deles era, como reforça Alberto Tassinari, a pintura refinada do artista canadense Philip Guston. O gosto pelo trabalho de Guston não é gratuito. Um dos artistas da passagem da arte moderna para a arte contemporânea, ele vinha do expressionismo abstrato da década de cinqüenta. Mais velho, se interessou pelos quadrinhos, por temas vulgares e rotineiros. Começou a figurá-los com um traço caricatural e uma cor pesada, que muitas vezes dava aos corpos a aparência de carne esfolada, de matéria bruta e massuda. O modo de lidar com a matéria, bem como a falta de solenidade do tema pegou os dois artistas paulistanos em cheio.

Com este tratamento da tinta na cabeça, Paulo Monteiro e Rodrigo Andrade abordavam alguns temas da pintura alemã e americana dos anos oitenta em seus trabalhos. Diferente de teutos, como Markus Lüpertz e Anselm Kiefer, no entanto, eles esvaziavam todo o conteúdo simbólico das imagens e transformavam as figuras em objetos pesados, massudos, feitos com pinceladas carregadas de tinta e pouca uniformidade. A pintura de Kiefer preocupava-se com um aspecto oculto nos símbolos pictóricos e históricos de um país recém saído do nazismo. Sua obra traz a tona sentidos que aquelas imagens cívicas e míticas queriam escamotear, carregar para o túmulo. Responde com gestos violentos e intensos uma violência cultural silenciosa, que vinha de gerações.

Do mesmo modo, a arte dos norte-americanos tem muito de resposta histórica. Julian Schnabel, David Salle e Jean Michel Basquiat eram associados a uma estética descompromissada, preocupada com certa espontaneidade e certa leveza, supostamente deixadas de lado pelos artistas do minimalismo e da arte conceitual.

Paulo Monteiro, escultura em bronze (2000)

Os trabalhos de Paulo Monteiro e Rodrigo Andrade não se preocupam nem com o lado oculto dos símbolos e nem pretendia ser uma resposta histórica ao minimalismo. Embora ambos tenham sofrido a influência, como foi dito antes, de pintores como Anselm Kiefer, Julian Schnabel e Markus Lüpertz sua pintura não busca ser um veículo para a revelação. O que os interessava naqueles pintores era o acabamento de sua pintura, o modo de usar das cores, que lembra um uso de adjetivos exagerados e uma certa figuração caricata e deformada. Além disso, eles também se interessavam pelo tratamento tátil da tinta, a camada espessa de cor que vinha sobre a tela.

Mas a história do tema, bem como a concepção da arte como uma experiência de revelação passam longe dos dois artistas. Na verdade, ao longo da trajetória de um e de outro, de maneiras diferentes, a figura (em Paulo Monteiro) e o gênero, em Rodrigo Andrade, parecem se diluir em cada passo da obra deles.

Paulo Monteiro se concentra no gesto como tentativa de conformar uma massa de chumbo, uma mancha difusa de cor ou mesmo um espaço em branco do papel. Se existe um tema é a possibilidade do gesto artístico conformar uma massa.

A trajetória de Rodrigo Andrade é mais cheia de idas e vindas. Como Paulo Monteiro, ele também trabalha em uma zona cinzenta entre a figuração e a abstração. Diferente de Monteiro, que procura mostrar o caráter resistente da matéria, aqui ele procura retirar a definição linear dos espaços. O desenho desaparece e o espaço da tela torna-se lugar para manifestação de formas regulares de luminosidade. A idéia é sugerir espaços possíveis pela relação de uma forma com outra.

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Rodrigo Andrade (2005)

No grau zero da teologia, nenhum dos artistas revela mistérios escamoteados. Preferem aproveitar a densidade de cor e de matéria para desfazer a imagem e estabelecer outras relações entre os materiais. Incrível como um e outro retiraram maneiras tão distintas de lidar com a imagem e nos contar coisas a partir de uma relação tão pouco discursiva.

Paulo Monteiro: Errante

Paulo Monteiro - grafite sobre papel (1992)

Desde o fim da década de oitenta, a matéria trabalhada por Paulo Monteiro é mais pesada e disforme. Sua pintura é massuda, seu desenho é massudo e sua escultura é mais massuda ainda. Isso aparece pela primeira vez na pintura. Rapidamente, Monteiro abre mão do contorno como contingente da cor e passa a trabalhar com as cores de uma maneira quase escultural.

Naquele momento, ele aplica a cor na tela misturando-a com cera. A tinta fica grosa. Sobre a lona, aparece um emaranhado de pinceladas grossas, formas pesadas que parecem escapar de seus contornos, pinceladas que sugerem o desenho de um objeto mas que vai se desmanchar assim que for colocado no chão.

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Paulo Monteiro - desenhos em grafite sobre papel (1989/1995)

É como se os traços não pudessem mais conformar nada e as cores tornassem um corpo, que não pode ser atributo de uma figura ou de uma forma. Por vezes, as formas são sugeridas, mas é como se seus limites se diluíssem diante do peso da cor.

Nos desenhos, que o artista começa a fazer em 1992, o gesto tenta lidar com um interior pesado, que se expande para além dos limites que ele tenta conformar. Além dos limites da forma.

O artista desenha sempre a partir das margens. O branco do papel aparece como uma cor que o traço frágil tenta conformar. Mas o branco é corrosivo, aparece com uma força gigantesca, que empurra os traços para a borda do papel. O curioso é que, muitas vezes, o traçado insinua formas reconhecíveis. São fragmentos do corpo humano e as vezes até a visão de um homem a desenhar. Eles nunca aparecem inteiros, mas como um gesto, uma tentativa de insinuar essa forma em uma matéria que se desfaz, em uma natureza que não quer ser reconhecível. O artista se esforça para dar conta de um material poético molenga, escorregadio e difícil de conformar.

Os desenhos são sintéticos, parecem buscar a síntese do traçado de Matisse, com a diferença que o que eles contornam não é algo plano e estável, mas um branco luminoso, que nas curvas dos traços nos ilude, e sugere um volume que quebra a linha. Desta forma, sua poética fala do esforço de se conformar uma imagem ou uma idéia,  de uma tentativa que sempre tem algo que falha, que nunca encontra a sua forma ideal na matéria.

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Paulo Monteiro, desenho

Diante de tal consciência, o artista começou a sugerir relações de equilíbrio nessas massas fugidias. Nas esculturas feitas a partir de 1998, mas mais precisamente nas de 2000 em diante, a poética deixou de falar só do gesto, mas tratou de relações mais compositivas que o artista estabeleceu com os seus volumes.

Aquelas formas molengas, ao invés de se desfazerem ou desabarem com o gesto, agora estabelecem relações de equilíbrio, ou melhor, relações construtivas de equilibrista. É como se o artista cortasse a peça de argila e a torcesse no limite do possível. Acredito que esses gestos e manchas desencontradas revelam muito de uma reflexão do ofício de quem figura, de quem tenta encontrar uma forma idealizada em um material que nem sempre é simpático. Por isso o trabalho tem algo cômico, de uma forma que não consegue se completar, se desfaz e se torna algo que diferente do que o artista havia planejado.

A sátira, bem como algo melancólico, está no fato da natureza nem sempre responder aos nossos gestos, nem quando tentamos agradá-la. O procedimento de Paulo Monteiro tem algo de errante, nos dois sentidos que a palavra pode ter. Por um lado ela tenta procurar uma forma desenhada apesar de não saber perfeitamente onde ela está. Mas é errante também no aspecto do erro. O artista parece não acertar a mão, mas é aí que ele acerta, finge que seu gesto não dá conta da configuração que ele quer dar ao material. Pura cascata, pois é aí que ele acerta.

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Paulo Monteiro (2005)

Não sei se alguém me sugeriu isso, mas quando vi a exposição retrospectiva de Paulo Monteiro lembrei da descrição que Samuel Beckett fez da pintura de Bram Van Velde:

“ser artista é falhar, como ninguém ousou falhar, que o fracasso é o seu mundo e que recuar diante dele é deserção [...] incapaz de agir, obrigado a agir, ele gera um ato expressivo, mesmo que apenas de si mesmo, de sua impossibilidade e de sua obrigatoriedade.”

Acredito que essa dificuldade de se moldar algo seja fundamental na explicação do seu trabalho. Seria como se aqueles elementos desvinculados uns dos outros nas suas últimas telas falassem uns para os outros, tal como um personagem de Beckett fala em Worstward Ho (1983): “tentem de novo, falhem de novo, falhem melhor”. Diante de uma vida que se mostra tão arisca, Monteiro encontra um jeito da linha dar sentido ao que nos escapa.

Rodrigo Andrade :Ilusão e alucinação

Rodrigo Andrade, 1992

Em mais de uma oportunidade, ouvi em eventos públicos da boca de Rodrigo Andrade ou de Paulo Monteiro que ambos tinham temperamentos artísticos muito distintos desde que começaram a desenhar profissionalmente. Monteiro desenhava caricaturas, com um traço influenciado pelos grandes nomes do humor. Rodrigo Andrade sempre teve mais facilidade para o traço realista.

Isso aconteceu faz muito tempo, no entanto, parece um bom esteio para diferenciar a obra dos dois artistas. Assim, se monteiro tem uma caracterítica mais de tentar descrever o material e lhe atribuir característica, além de preferir um formato satírico, Andrade parece ter um esforço da busca da verossimilhança. Mas como falar de verossimilhança quando se trata de um artista que pinta pastilhas de cor tão naturais como a bala chita?

Existe um conflito doutrinário na história da arte que tem mais de mil anos de idade. Ele coloca de um lado artistas que unificam a sua cena pela linha e de outro artistas que unificam a sua obra pela cor. Os artistas do desenho são vistos como racionalistas os da mancha ligados à percepção dos sentidos. Os primeiros chamados de lineares, os segundos de pictóricos. A conversa veio de longe e animou boa parte da produção moderna. Em grande medida, a oposição mais simplória entre artistas concretos e artistas neoconcretos passa por esse embate.

No caso do trabalho de Rodrigo Andrade, tanto a linha como a mancha são da maior importância. Mas se Paulo Monteiro tratou do gesto de conformar a matéria como um assunto, falando mais de linha, ou da possibilidade da linha conformar a matéria, o trabalho de Andrade parece tirar as determinações da linha do espaço e fazer com que o percebamos a partir da junção de formas regulares de cor.

Rodrigo Andrade

Nos últimos dez anos, ele simplificou os elementos da sua pintura, diminuiu o número de cores e passou a trabalhar com formas bastante simples, fáceis de serem reconhecidas. Vez ou outra, um retângulo irregular faz vezes de porta. Mas pela relação que ele estabelece com as outras formas, logo entendemos o que Andrade quer dizer.

Em uma linda pintura de 1998 , você não vê o cômodo pela sua arquitetura, mas pela relação que manchas regulares estabelecem umas com as outras. É uma mesa preta diante de dois retângulos amarelos que parecem se abrir para fora daquela sala que não é lugar nenhum. Mas não há luz e nem algo que marque uma particularidade do lugar, só a relação entre formas mais superficiais e outras que sugerem a tridimensionalidade.

Rodrigo Andrade

Desde 1995 e 1998 os lugars onde acontecem a figuração de Andrade tornaram-se cada vez mais indefinidos. Naquela época, ele fez pinturas quase monocromáticas inspiradas nas gravuras de Oswaldo Goeldi. A escuridão, típica da obra goeldiana, se revelava como um breu, um espaço cego, onde não percebíamos os limites visuais dos lugares.

Apreendíamos a singularidade dos corpos e lugares do modo como um cego faz, pela tatilidade que o artista atribuía às formas. Moldadas cuidadosamente pelo pincel do artista.

A pintura raleou um pouco, mas os lugares se tornaram ainda mais indeterminados. No fim da década de noventa, aqueles interiores se tornaram espaços vazios. Alguns pareciam cômodos que acabaram de receber a mudança. Um lugar onde moram caixas fechadas e móveis que não sabem onde vão ficar.

É importante lembrar, o tema sempre foi um dos preferidos de Andrade. Em 1985, ele fez quartos vazios, bagunçados, com uma paleta gustoniana. Certamente alguns dos melhores trabalhos que a chamada Geração 80 realizou.

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Rodrigo Andrade (1998)

Mas aqui os espaços não perdiam apenas a ordem. Pouco a pouco, as paredes deixam de ter cantos, o chão e o teto desaparecem desses cenários de Andrade. Quanto mais o artista pintava, mais indefinidos aqueles espaços silenciosos se tornavam. O que sugeria um espaço arquitetônico, agora é apenas o intervalo entre formas volumosas que sugerem alguma relação de anterioridade e posterioridade diante da cor. O artista posa cubos anônimos e sem uso evidente em um fundo infinito.

Eis que em 1999, o procedimento se torna muito anônimo. O artista tem a ótima idéia de eliminar o fundo colorido e aplicar estas formas previamente determinadas na tela branca. O formato dos retângulos é previamente estabelecido por máscaras que Andrade faz com fita crepe. Agora, as formas são sobrepostas, justapostas com distâncias diferentes. Alguns retângulos coloridos são mais espessos que os outros. Essa diferença de espessura permite que vejamos, em alguns casos, as formas mais delgadas como sombras. Em um trabalho de 2001, a proximidade da cor permite este tipo de juízo.

Quem olha estas pinturas, inevitavelmente estabelece relações entre as formas. As relações são dadas pelas cores, pelo tamanho e pelo formato de cada catoto de tinta. Embora muito planas, elas simulam relações de anterioridade e posterioridade, podem sugerir familiaridade de cores tão diferentes, e simular uma ilusão. Tal as caixas e retângulos nas paredes de seus “interiores” Andrade por vezes, através de formas tão artificiais, sugere umintervalo na tela, um intervalo abstrato, mas que faz com que percebamos uma profundidade que não enxergaríamos de outro modo.

Como bem descreveu Taísa Palhares: ” O procedimento, que segue uma regra comum básica, torna-se infinitamente diversificado, na medida em que nunca sabemos como cores, por vezes tão alheias entre si, reagirão lado a lado”

Eis que em 2000, o artista resolveu ampliar estas relações e inserir os seus retângulos direto no espaço comum. A primeira intervenção foi no corredor do Museu de Arte Moderna de São Paulo. No ano seguinte, o artista interveio no contaminadíssimo “Lanches Alvorada”, bar perto da estação Santa Cecília do metrô. Ao invés de estabelecermos relações entre as cores em um espaço neutro, como o da tela, aqui a tinta se relacionava com tudo o que estava ao seu redor. Mais que isso, conseguia, assim como o artista fez quando geometrizou suas formas nas pinturas de interiores, diluir algo do significado da televisão, dos azulejos e da tabela de preço e fazer com que tudo o que estava na parede se relacionasse com os quatro quadriláteros de tinta.

Um movimento duplo era instalado: os objetos ganhavam o mesmo valor da “pintura’ e a nobre arte também era mais um freguês a circular pelo recinto popular do centro da cidade. Quando decidíamos comparar um objeto ao outro, suspendíamos um pouco ou o sentido funcional dos cacarecos na parede do bar, ou suspendíamos o aspecto meio autista das grossas camadas de tinta. Ele retirava certo sentido utilitário das coisas, ao inserir essas manchas pesadas no ambiente.

Agora percebíamos tudo em relação. Embora o espaço do bar não fosse redefinido, as relações entre os seus objetos já não era tão óbvia. Como em um botequim qualquer, tudo se relacionava com tudo e criava novas relações entre quem passava por lá, mesmo que elas durassem menos de um minuto. Esse tipo de relação tinha algo de ilusório. Os objetos não se tornavam parte de uma obra de arte. Mas acredito que é dessa diluição entre os elementos, inclusive no interior da própria pintura, que permite que possamos multiplicar as nossas experiências visuais que o trabalho de Andrade fala.

 

Rodrigo Andrade

Curiosamente, no seu filme Uma noite no escritório (2007) feito em sua exposição no Museu da Caixa Econômica Federal no centro de São Paulo, estas relações de uma cor com outra e delas com as coisas não-artísticas é apresentada como uma alucinação, ou melhor, como o resultado de “moléstias nervosas”. Cansado, o artista na pele de Sr. Wilson, enxerga essas manchas por todos os lados. Elas perturbam sua relação com os objetos e com as coisas. Retira o sentido cotidiano daquelas coisas.

No filme, tive a impressão que o personagem central vive aquele sonho da razão gravado por Francisco Goya. Segundo ele, aquele sonho “produz monstros”. Mas as formas não são parte desse sonho, mas um momento em que essa racionalidade instrumental, de cumprir as tarefas, de viver por demanda, relaxa e nós podemos estabelecer as relações que quisermos com as coisas que quisermos.

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Rodrigo Andrade: "Lanches Alvorada'

FHCardoso1

Ex-presidente e ex-sociólogo, o sicofanta maior da nação também teve seus momentos tropicalistas em Coimbra

Não fosse o Tiago e o Gua Gua estaria as moscas. Eu tô enterrado na mudança de trabalho e cidade que eu preparo aqui. O Jay também tá enrolado com o final de semestre e com os perhaps da vida. Só o gêmeo mais jovem constrói, ainda que a carga do fim de 2009 também esteja bem pesada pra ele.

E eis que Caetano Veloso (com uma forcinha do Estadão) entrou no jogo eleitoral. Em sua defesa do voto em Marina Silva, o cantor diz que ela é uma versão de Lula misturada com Obama. Seria uma Lula sem cafonice. Nada mais superficial com tintas de politizado que isso. Parece um metaleiro que gosta do Carlinhos Brown por que ele toca no Sepultura, foi aceito no clube. Se vergonha alheia matasse, só essa expressão tinha causado um genocídio na República Odara.

Não para aí, na mesma entrevista, ele defende Roberto Mangabeira Unger, o antagonista que tirou Marina do Ministério. Ou seja ele quer o simbolismo de Marina, mesmo sem saber o que o governo dela quer dizer. É muito parecido com sua adesão ao Gabeira. Não importa se o Armínio Fraga tá na jogada, não importa que o ex-deputado tenha participado do Parlamenturismo. O importante é que ele é do mesmo nicho social que Caetano. Marina não é, mas tem um discurso aceito.

Na entrevista, chama Lula de analfabeto e, com isso, tenta arrumar briga com um de seus maiores desafetos, o lingüista Marcos Bagno. Já falamos dele aqui no Guaciara e Caetano, em sua experiência blogueira, sempre o pintou como um arauto da ignorância. E fala da “grossura” de Lula pra jogar aquele cuspinho que afoga o inimigo.

Depois, emenda-se a falar do programa econômico “de direita” de Lula. Repete o velho argumento de que Serra no poder orquestraria medidas econômicas mais progressistas. Eu, sinceramente, tenho dificuldade de entender o que o Caetano Veloso quer dizer com isso.

Ainda mais quando diz que um governo que aposta no impacto econômico do gasto social é de direita. A batalha de passar a dívida em dólar para dívida em real é direita? A ascensão social seria fruto de medidas de direita? E a cessão de crédito do bancos públicos contra todos os interesses privados? Agora na crise, por decisão do governo, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal abriram as torneiras do crédito – anêmico nos bancos privados. Foi isso que freou a onda de demissões das empresas privadas brasileiras.

O governo também trabalhou pesado na área fiscal. Pode ter um custo no futuro, mas como  escreve José Paulo Kupfer:

Na área fiscal, a desoneração de impostos para a compra de material de construção, automóveis e eletrodomésticos animou os consumidores e garantiu um ritmo razoável de produção. Não à toa, o setor automotivo brasileiro virou case internacional, com vendas recordes mês a mês, apesar da grave crise. Na construção civil, um novo e amplo programa de financiamento de habitação e estímulo setorial (“Minha casa, minha vida”) nasceu dando certo numa das faixas de renda (de três a dez salários mínimos), embora ainda patine na faixa mais baixa.”

Caetano disse que tinha de estudar, mas reclama da ignorância do governante. Assim como FHC, ele reclama do governo, chama de autoritário e aparelhador. Também repete o discurso mais antigo e mitológico do inchaço da máquina pública.  As contratações do setor público e o olho para a descentralização das medidas têm criado um novo caldo de cultura político, distante das metrópoles e isso acontece na área social, econômica e cultural. Mas a miopia antiquada e conservadora de Caetano e de Fernando Henrique sofre para ver isso.

Caetano dá de barato e “esquece” de mencionar a área da Cultura. Afinal é a sua turma que impede que 90% dos artistas tenham acesso às mesmas verbas que os latifundiários culturais do grupo dele. Para essa desigualdade, ele não clama por Marina. No latifúndio da cultura ninguém mexe. Não vale a pena nem conhecer a contra-proposta.

É engraçado que o sickoFHanta mór tenha escrito um texto só alguns dias antes de Caetano. O ex-presidente e ex-sociólogo, do baixo de sua impopularidade (em enquete do Uol, ele injustamente perdia até pro Collor e pro Sarney na pergunta: “quem foi o melhor presidente do Brasil?”), reclamava do que chama de “autoritarismo da maioria”, segundo ele o governo desrespeita as regras do jogo e a iniciativa privada.

O argumento é claramente uma reação às cobranças do governo e dos fundos de pensão público contra a diretoria da Vale do Rio Doce.

O curioso é partir de um presidente que mudou as regras do jogo enquanto ele estava em andamento para garantir a sua reeleição.  Fernando Henrique seguiu o Fujimorismo em voga na época para garantir o seu segundo mandato (o mesmo ideal que se repete agora no governo Uribe, na Colômbia). Além disso, foi um dos poucos governos a reconhecer o ditador nipo-peruano. E lá não tinha referendo, era pau e pedra. Se tivesse no poder, estaria se congraçando com os golpistas de Honduras, assim como fizeram os deputados da sua base parlamentar. O príncipe  agora me vem falar no tal autoritarismo popular para questionar o papel brasileiro na crise?

Sinceramente, qualquer comerciante de porta de boteco sabe que o papel do governo é fomentar a economia – quem sabe do dinheiro que sai do BNDES e entra na Vale do Rio Doce com certeza não duvida disso. É difícil encontrar também alguém que não tenha uma idéia que uma tonelada de minério e uma viga de metal têm valores muito diferentes. Por que não produzir ferro? E não precisa ser muito inteligente para saber que sem a ação do Estado, o Brasil mergulharia na crise assim como os outros países mergulharam.

Agora, por que o Fernando Henrique não abriu o bico, quando a Vale saiu demitindo funcionários com medo da crise? Quando o presidente Lula reclama da falta de investimentos da maior empresa privada do país, ele tá reclamando da falta de iniciativa do setor privado, que prefere mamar nas tetas das medidas do governo federal, reclamar de impostos e não tem empreendedorismo para mudar nada. Além disso, como me disse o Tiago, o ex-sociólogo  vulgariza a interpretação de Francisco de Oliveira em O ornitorrinco, sobre o papel dos sindicalistas nos fundos de pensão.

O ex-presidente e ex-sociólogo e o cantor, precisam conhecer melhor o Brasil que mudou muito e para melhor na ausência deles. Caetano padece de um conservadorismo deslumbrado e ignorante e Fernando Henrique de um rancor mal esclarecido, que nem seus companheiros tucanos acompanham mais. Se a oposição for essa, tá difícil do Brasil ter alguma possibilidade de alternância de poder conseqüente em um futuro próximo. Melhor.

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