FHCardoso1

Ex-presidente e ex-sociólogo, o sicofanta maior da nação também teve seus momentos tropicalistas em Coimbra

Não fosse o Tiago e o Gua Gua estaria as moscas. Eu tô enterrado na mudança de trabalho e cidade que eu preparo aqui. O Jay também tá enrolado com o final de semestre e com os perhaps da vida. Só o gêmeo mais jovem constrói, ainda que a carga do fim de 2009 também esteja bem pesada pra ele.

E eis que Caetano Veloso (com uma forcinha do Estadão) entrou no jogo eleitoral. Em sua defesa do voto em Marina Silva, o cantor diz que ela é uma versão de Lula misturada com Obama. Seria uma Lula sem cafonice. Nada mais superficial com tintas de politizado que isso. Parece um metaleiro que gosta do Carlinhos Brown por que ele toca no Sepultura, foi aceito no clube. Se vergonha alheia matasse, só essa expressão tinha causado um genocídio na República Odara.

Não para aí, na mesma entrevista, ele defende Roberto Mangabeira Unger, o antagonista que tirou Marina do Ministério. Ou seja ele quer o simbolismo de Marina, mesmo sem saber o que o governo dela quer dizer. É muito parecido com sua adesão ao Gabeira. Não importa se o Armínio Fraga tá na jogada, não importa que o ex-deputado tenha participado do Parlamenturismo. O importante é que ele é do mesmo nicho social que Caetano. Marina não é, mas tem um discurso aceito.

Na entrevista, chama Lula de analfabeto e, com isso, tenta arrumar briga com um de seus maiores desafetos, o lingüista Marcos Bagno. Já falamos dele aqui no Guaciara e Caetano, em sua experiência blogueira, sempre o pintou como um arauto da ignorância. E fala da “grossura” de Lula pra jogar aquele cuspinho que afoga o inimigo.

Depois, emenda-se a falar do programa econômico “de direita” de Lula. Repete o velho argumento de que Serra no poder orquestraria medidas econômicas mais progressistas. Eu, sinceramente, tenho dificuldade de entender o que o Caetano Veloso quer dizer com isso.

Ainda mais quando diz que um governo que aposta no impacto econômico do gasto social é de direita. A batalha de passar a dívida em dólar para dívida em real é direita? A ascensão social seria fruto de medidas de direita? E a cessão de crédito do bancos públicos contra todos os interesses privados? Agora na crise, por decisão do governo, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal abriram as torneiras do crédito – anêmico nos bancos privados. Foi isso que freou a onda de demissões das empresas privadas brasileiras.

O governo também trabalhou pesado na área fiscal. Pode ter um custo no futuro, mas como  escreve José Paulo Kupfer:

Na área fiscal, a desoneração de impostos para a compra de material de construção, automóveis e eletrodomésticos animou os consumidores e garantiu um ritmo razoável de produção. Não à toa, o setor automotivo brasileiro virou case internacional, com vendas recordes mês a mês, apesar da grave crise. Na construção civil, um novo e amplo programa de financiamento de habitação e estímulo setorial (“Minha casa, minha vida”) nasceu dando certo numa das faixas de renda (de três a dez salários mínimos), embora ainda patine na faixa mais baixa.”

Caetano disse que tinha de estudar, mas reclama da ignorância do governante. Assim como FHC, ele reclama do governo, chama de autoritário e aparelhador. Também repete o discurso mais antigo e mitológico do inchaço da máquina pública.  As contratações do setor público e o olho para a descentralização das medidas têm criado um novo caldo de cultura político, distante das metrópoles e isso acontece na área social, econômica e cultural. Mas a miopia antiquada e conservadora de Caetano e de Fernando Henrique sofre para ver isso.

Caetano dá de barato e “esquece” de mencionar a área da Cultura. Afinal é a sua turma que impede que 90% dos artistas tenham acesso às mesmas verbas que os latifundiários culturais do grupo dele. Para essa desigualdade, ele não clama por Marina. No latifúndio da cultura ninguém mexe. Não vale a pena nem conhecer a contra-proposta.

É engraçado que o sickoFHanta mór tenha escrito um texto só alguns dias antes de Caetano. O ex-presidente e ex-sociólogo, do baixo de sua impopularidade (em enquete do Uol, ele injustamente perdia até pro Collor e pro Sarney na pergunta: “quem foi o melhor presidente do Brasil?”), reclamava do que chama de “autoritarismo da maioria”, segundo ele o governo desrespeita as regras do jogo e a iniciativa privada.

O argumento é claramente uma reação às cobranças do governo e dos fundos de pensão público contra a diretoria da Vale do Rio Doce.

O curioso é partir de um presidente que mudou as regras do jogo enquanto ele estava em andamento para garantir a sua reeleição.  Fernando Henrique seguiu o Fujimorismo em voga na época para garantir o seu segundo mandato (o mesmo ideal que se repete agora no governo Uribe, na Colômbia). Além disso, foi um dos poucos governos a reconhecer o ditador nipo-peruano. E lá não tinha referendo, era pau e pedra. Se tivesse no poder, estaria se congraçando com os golpistas de Honduras, assim como fizeram os deputados da sua base parlamentar. O príncipe  agora me vem falar no tal autoritarismo popular para questionar o papel brasileiro na crise?

Sinceramente, qualquer comerciante de porta de boteco sabe que o papel do governo é fomentar a economia – quem sabe do dinheiro que sai do BNDES e entra na Vale do Rio Doce com certeza não duvida disso. É difícil encontrar também alguém que não tenha uma idéia que uma tonelada de minério e uma viga de metal têm valores muito diferentes. Por que não produzir ferro? E não precisa ser muito inteligente para saber que sem a ação do Estado, o Brasil mergulharia na crise assim como os outros países mergulharam.

Agora, por que o Fernando Henrique não abriu o bico, quando a Vale saiu demitindo funcionários com medo da crise? Quando o presidente Lula reclama da falta de investimentos da maior empresa privada do país, ele tá reclamando da falta de iniciativa do setor privado, que prefere mamar nas tetas das medidas do governo federal, reclamar de impostos e não tem empreendedorismo para mudar nada. Além disso, como me disse o Tiago, o ex-sociólogo  vulgariza a interpretação de Francisco de Oliveira em O ornitorrinco, sobre o papel dos sindicalistas nos fundos de pensão.

O ex-presidente e ex-sociólogo e o cantor, precisam conhecer melhor o Brasil que mudou muito e para melhor na ausência deles. Caetano padece de um conservadorismo deslumbrado e ignorante e Fernando Henrique de um rancor mal esclarecido, que nem seus companheiros tucanos acompanham mais. Se a oposição for essa, tá difícil do Brasil ter alguma possibilidade de alternância de poder conseqüente em um futuro próximo. Melhor.

Enquanto o final de ano e suas obrigações tomam conta dos donos do Guaci. Eu republico um texto que gostei muito de fazer sobre um crítico a quem devo muito. Boa leitura!

texto publicado originalmente na revista Novos Estudos Cebrap número 66 (2003)

O impressionismo: reflexões e percepções, de Meyer
Schapiro. São Paulo: Cosac & Naify, 2002, 360 pp.

10616gEditado originalmente em 1997, este livro sobre o Impressionismo francês reúne textos produzidos pelo historiador da arte nova-iorquino Meyer Schapiro desde 1928. O tema assombrou toda a carreira do autor, sendo retomado em momentos diversos de sua produção acadêmica e de sua militância na crítica de arte, na forma de conferências e ensaios. E nesse percurso a perspectiva de Schapiro parece ter sempre incorporado novos sentidos, como se a cada excursão por essas paragens ele aprofundasse uma camada em sua interpretação. Assim, se num primeiro momento o Impressionismo foi motivo de questionamentos pontuais e variados, com o tempo acabou por constituir uma plataforma sobre a qual o autor pôde fundar certa teoria da arte moderna.

Considerando os primeiros textos de maneira avulsa, notamos que o autor esmiuça o debate em torno do Impressionismo em busca de uma medida de ruptura e continuidade do movimento com a tradição ocidental. Já no livro, que coroa todo o percurso de Schapiro no estudo do tema, mesmo esses ensaios iniciais parecem menos tópicos: aí o Impressionismo já aparece quase como um episódio inaugural do modernismo, com um alcance que se estende pelo século XX. Tal dimensão prospectiva está bastante evidente nos textos que se tornaram capítulos conclusivos do livro, em que são examinadas as relações desse conjunto de pinturas com a cultura européia do seu tempo, bem como o seu impacto sobre a história da arte.

Na amarração final do livro e em suas conclusões tal dimensão se aprofunda, pois se trata aí de entender o estrondo mais duradouro do Impressionismo: a fundação de uma pintura moderna. Para tanto, o autor procura delimitar bem o terreno e traçar uma compreensão do Impressionismo como uma categoria histórica que nos permita chamar um sem-número de pinturas com tal nome. Para Schapiro, tratar o Impressionismo simplesmente como um estilo de época seria enganoso. Na sua abordagem, a pintura impressionista configura sobretudo uma nova forma de olhar o mundo e de atuar sobre ele.

Esse gesto artístico renovador estaria enraizado no realismo pictórico francês, que buscava fugir de conotações literárias e de temas eruditos e partir para a observação direta dos fenômenos. Tratava-se, ainda de modo incipiente, de romper com os esquematismos acadêmicos mediante a representação das posturas populares, que não se encaixavam nos cânones solenes da academia. Dessa forma, a pintura de um Courbet teria alimentado o ponto de partida impressionista, e quando Manet trouxe às telas uma espécie de indeterminação das cenas e personagens essa tendência antiesquemática se aprofundou, junto com uma certa tendência à vulgaridade dos temas.

Segundo Schapiro, com o Impressionismo desfolha-se mais uma camada do idealismo que caracterizava a pintura acadêmica. Artistas como Monet, Renoir, Pissarro, Cézanne e Degas buscam estabelecer uma relação de outra natureza com o que o historiador chama de “ambiente” (cf. pp. 93-94). A arte se torna mais próxima da realidade, fazendo-se obra de representação direta de fenômenos voláteis, que não poderiam ser capturados facilmente a partir das regras de conduta acadêmicas:

Os impressionistas substituíram a história e o tema preparado previamente no ateliê pelo tema encontrado pessoalmente, pela pintura vivida em um novo sentido: não, como no passado, o tema imaginário que evoca emoções profundas ou extremas, mas a experiência real” (p. 317).

Entre as décadas de 1860 e 1880 Paris vivência uma nova e intensa urbanidade, em que os espaços abertos são tomados por multidões anônimas e as relações de sociabilidade se tornam mais fugazes e impessoais. Em meio à pujança das agitadas ruas parisienses, os impressionistas focam seu interesse temático nos descomprometidos momentos de lazer da população. Tais cenas da vida cotidiana são representadas por esses artistas com um tom nada épico ou dramático, sem muita inteireza, captando a fluidez da passagem do tempo. Ao privilegiar momentos de “diversão e festividades”, diz Schapiro, as imagens impressionistas transmitiam “uma experiência e um modo de vida” que “respondiam ao encanto e grandeza desses ambientes” (p. 137).

O deleite e a identificação com essa subjetividade moderna levarão os impressionistas a tomar certa distância dos pintores realistas do século XIX, embora preservando o procedimento daqueles artistas engajados. Além de modificar a temática e o gestual das personagens na tela, buscam estabelecer uma nova relação com o que é retratado e com o que a pintura aspira a ser. Por isso as cores se multiplicam, o contorno perde importância e a incidência de luz torna o ambiente diáfano, como se os sólidos não fossem mais palpáveis. Inflados por esse ânimo com a pulsação do que viria a ser a capital do século XX, procuram extrair a beleza da dispersão da metrópole sem dramatizar as cenas. Segundo Schapiro, tal capacidade de reinventar essa visão fugaz e recortada de maneira saborosa diferencia as décadas impressionistas do “impressionístico” presente em toda a história da arte. Aqui se trata de reconstituir a visão do belo passageiro nos elementos ordinários e velozes do cotidiano parisiense, a vivacidade de uma experiência que ocorre no presente, aqui e agora, de coisas que acontecem diante de nossos olhos com ritmos e intensidades peculiares.

Nas telas impressionistas, a apreensão fenomenológica desses eventos dá-se a partir de um uso inusitado da cor e do emprego de formas pouco lineares. A superfície é constituída por uma simultaneidade de eventos cintilantes que nada tem a ver com a sobreposição de camadas históricas. Fenômenos palpáveis e objetos sólidos, como a Catedral de Rouen, surgem diante de nós como oscilações de luz e fragmentos de cor e textura. Mas para a realização de tais efeitos não há métodos nem técnicas preestabelecidos: os impressionistas negavam veementemente a prescrição de um programa na passagem do que se vê no ambiente para o que se constrói na tela. É o estilo pessoal de cada artista que recriam a riqueza daqueles ambientes.

Tal atitude estilística engendrou uma enorme diversidade formal e temática nas soluções píctóricas desses artistas, os quais “não estavam preocupadoscom um ideal científico de pureza e essencialidade das cores; quaisquer cores que escolhessem eram usadas de maneira empírica, experimental. Mudavam seu método de tempos em tempos, de quadro para quadro ou até mesmo de uma parte para a outra na mesma tela, conforme as possibilidades imaginadas e as qualidades que emergiam dessa justaposição de cores” (p. 239).

Para Schapiro, a maior importância do impressionismo talvez resida justamente nessa forma antidogmática de compor, na crença em uma sensibilização do olhar mediante proposições inusitadas de reconstrução dos objetos. Mais que isso, ao propor uma perspectiva enriquecedora sobre o que aparentemente é desprovido de valor — sem romantizações nem epopéias — o impressionismo recria o ponto de vista como a concepção de um momento em que o mundo aparece mais vivo e cheio de possibilidades.E essa carga valorativa parece ter permeado todo o espírito artístico moderno.

Tal gesto inovador parece ter tido nas gerações subseqüentes uma repercussão mais profunda do que as influências diretas das soluções meramente técnicas dos impressionistas ou das próprias contribuições individuais de cada artista. Schapiro afirma que o impressionismo “deixou de ser um estilo apropriado para uma geração mais progressista, em meados da década de 1880″, apesar de ainda gozar de um prestígio crescente junto ao público e às instituições, sendo “quase esquecido pelos revolucionários da arte do começo do século XX” (p. 342). Artistas como Gauguin e Van Gogh tomaram a herança impressionista — sobretudo o descompromisso com uma cor fidedigna e a ruptura com esquemaslineares de composição — para negar a alegria e o deleite na modernidade.

Essa capacidade de vergar os elementos da natureza, como se fosse possível substantivá-las, parece central na avaliação humanista de Meyer Schapiro. A propósito, Marshall Berman enfatiza a sua insistência na arte moderna como uma instância da subjetivação e da persistência da individualidade: “Schapiro quer deixar claro não só que o sujeito moderno está vivo, mas que está bem ali no âmago da obra de arte [...], uma arte em que a presença do artista em sua atividade é fonte primordial de verdade e força”*.

A situação recente da arte nem sempre parece beneficiar essa posição. Hoje, a carga alusiva da pintura,que permitia ao impressionismo atribuir cores a cenas do lazer parisiense como se reconstruísse um ponto de vista real, foi para frente da tela, muitasvezes aparecendo diante mesmo da sua superfície. E a articulação dos elementos da pintura, de modo geral, aparece de maneira mais objetiva — as coisas são mais o que são do que o que pretendem ser. Tal dimensão é talvez hostil a uma reafirmação do redimensionamento do olhar à maneira explorada pelo impressionismo. Esse olhar heterogêneo, proposto quase como uma ética prática pelos impressionistas, ainda faz sombra — melhor, cintila — aos que procuram uma obra de arte ativa, mas não parece mais responder às inquietações contemporâneas.

Como Schapiro não se curva a finalismos, a narrar a história da arte como um desenvolvimento unilinear, tratamos então de estender esse espírito da arte como entidade autônoma que pode vergar o mundo. Pois para o autor a autonomia não está restrita a um conjunto de regras do modernismo. Nesse sentido, à arte não caberia a restrição, muitas vezes programática, à manipulação de signos culturais ou à crítica funcionalizada, nem muito menos a instrumento de dada reflexão cultural ou ética. À arte cabe a realização de um fissuramento do mundo em que ele apareça mais rico, pleno de possibilidades históricas — como nas pinturas de Monet, que apresenta mais de uma dezena de visões da estação de Saint Lazare, mais de uma dezena de olhares sobre o parlamento inglês, a catedral de Rouen.

(*) Berman, Marshall. “Meyer Schapiro: a presença do sujeito”.
In: Aventuras no marxismo. São Paulo: Companhia das Letras,
2001, p. 255.

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Agora eu só escuto isto.  É o que o rock clássico tem de melhor:

Lamentando, publico este vídeo

Com muita honra, fui convidado pela +soma para cobrir um evento com novíssimos nomes da arte contemporânea na Inglaterra. Tive sorte e peguei a cidade em uma animação danada. Exposições com trabalhos inéditos de Anselm Kiefer,  Gustav Metzger, Damien Hirst, Anish Kapoor e  Carlos Garaicoa; além das retrospectivas de John BaldessariEd Ruscha e um ponto de vista equivocado, mas forte , sobre os desdobramentos da pop. Aqui em Londres confirmei que a Sophie Calle de fato não faz o meu tipo (em breve mando um artigo sobre isso), mas vi muitos garotos cheios de energia fazendo arte e música boa.

Um que faz as duas coisas ao mesmo tempo é o Felix Thorne. Vi e gostei das suas traquitanas. Por isso, aproveito e posto as máquinas operando. Enquanto o tempo não passa, aviso que no sábado vou ver o Steve Reich executar as suas peças e domingão tem a alegria da London Improvisers Orchestra de sempre (para mim um dos melhores programas turísticos de Londres). Hoje eu soube que ontem perdi a Haco, mas a vida é assim…

inferno

Amigo de fé e irmão camarada, o Daniel Pitta colaborou no Guaci outra vez e é um dos nossos grandes amigos. Além disso, sempre tá levantando ótimas dicas pra gente. Dessa vez ele reuniu algumas coisas para inspirar o pessoal que acompanha o Guaci. É muita alegria, muita coisa cabulosa e muita curtição.

O julgamento de Gil em Floripa

O julgamento de Gil em Floripa

Uma das coisas de que mais gosto a respeito desse blog é o quanto o que aqui se discute me afeta e me estimula. Esse blog é energético – por aqui passam chispando centelhas, luzes se acendem – e bom mestre – caminhos se acham, se abrem, lições se dão recebendo. Então um gosto meu é devolver, partilhar.

Queria sugerir a série “Encontros”, da Azougue Editorial. Por enquanto, só pude ler dois livrinhos, o do Vinícius de Moraes e o do Gilberto Gil. Mas, pelo que os dois apresentam, os outros devem também valer muito o investimento na leitura. Especialmente o do Gil, que é um livrinho construído por entrevistas posicionadas sempre em momentos chaves da trajetória desse homem bem diverso, múltiplo. Há o encontro com os Mutantes (“Serginho tocava indiferentemente Bach, Beethoven , iê-iê-iês e rocks de Elvis Presley, para ele era a mesma coisa.”), com o mundo no exílio em Londres, com o que Miles Davis pós-Bitches Brew lhe mostrou…

Mas há também as crises criativas, as encruzilhadas, o início da experiência política em Salvador, a década de 90 e o trabalho à frente do Ministério da Cultura. Tudo visto sempre com muita lucidez, com uma clareza de quem confia no instinto, nos caminhos da vida. Mas o que mais me emocionou no livro foi a matéria sobre a prisão por porte de maconha durante uma turnê dos Doces Bárbaros, em 1976. Só da gente entender o que eram os Doces Bárbaros e o que aqueles artistas queriam com o projeto, e a isso juntar o fato em si da prisão, da tocaia subpolicialesca, da sede de ver o justo cair – meteram o cara num sanatório! –, já diz muito sobre o Brasil da época: um contraste forte entre luz e escuridão. Selecionei dois trechos que achei muito legais, ambos vividos dentro do “Instituto São José”:

“(fulano) trouxe um gravador e deixou no apartamento de Gil. Chiquinho (o baterista dos Doces Bárbaros) colocou uma gravação de shows antigos e vários pacientes ficaram ouvindo. Um deles parecia mais ligado que os outros. Depois de ouvir ‘Refazenda’ várias vezes, se levantou, parou defronte de uma grande mangueira, e falou rapidamente:
- Venha cá, venha cá! Isto é feito de abacateiro?”

“… de todas as manifestações de carinho, nenhuma emocionou tanto Gil quanto uma visita recebida na tarde de domingo no Instituto São José. Ele tinha acabado de jogar o I-Ching. A resposta foi muito clara: Fogo. Ele comentou comigo, enquanto descíamos juntos com Hamilton para gravar sei depoimento:
- Fogo é luz, é brilho, muito bom…
O porteiro avisou Gil que algumas pessoas queiram falar com ele. Entramos na pequena sala de visitas da clínica. Ali, esperavam quase quarenta pessoas. Foram abrindo passagem e Gil ficou no centro do grupo. Em sua frente, luminosa no seu úlitmo mês de gravidez, linda na sua pureza de mãe, uma mulher iniciou um diálogo com Gil.
E ela, que carregava um menino no ventre, pediu justamente que definisse o que era uma criança. Ao seu lado, olhando para Gil, estavam ainda sete crianças. Gil olhou para elas, fitou a mulher, como quem dissesse “eis aí ao seu lado, eis aí dentro de ti a magia do que me perguntas: Olhe e verás”. Depois de um pequeno silêncio, ele começou a falar:
- A criança é justamente aquilo menos definível. É aquele ser que vem do desconhecido. É aquilo que nos dá a certeza de que não existe morte, de que tudo continuará existindo.
E ele falou muito mais e muito mais ainda lhe foi perguntado. No final todos se beijaram, e uma preta velha que na entrada eu não tinha percebido, abraçada a ele aplicou-lhe alguns passes.”

Jimmy Cliff sendo recebido no aeroporto por Gil e pela turma do Ilê Aiê em 1980

Jimmy Cliff sendo recebido no aeroporto por Gil e pela turma do Ilê Aiê em 1980

Ando ouvindo muita música africana, desde a ritualística até rock, psicodelia, enfim, música popular moderna. Nessa última, um cara que me emocionou bastante foi o Thomas Mapfumo, que trouxe a pipoca pra modernidade – em vários aspectos – transpondo ritmos de instrumentos tradicionais para a guitarra elétrica. Essa música do vídeo é da época da eleição do Robert Mugabe e marcou o fim do controle da minoria branca da Rodésia sobre a população do Zimbabwe. O disco de onde ela foi tirada reflete esse momento frágil, tênue de êxtase e esperança coletiva, a celebração de uma nova manhã (bem, todo mundo sabe no que deu o governo Mugabe…). Ouçam aí:

Esse outro vídeo é de uma música do Assagai, que nada mais era que os Blue Notes/Brotherhood of Breath sem o Chris MacGregor no piano… O que falar de uma banda com Louis Moholo, Mongezi Feza e Dudu Pukwana? Só pode ser coisa de primeira:

Abração!

Das músicas de domínio público, Cuitelinho é uma das mais bonitas. Aqui, ela é interpretada pelo Renato Teixeira e o seu filho Chico Teixeira. A versão inclui uma parte um verso que o Paulo Vanzolini  fez para a letra:

cuitelinho (autor desconhecido)

Cheguei na beira do porto
Onde as onda se espaia
As garça dá meia volta
E senta na beira da praia
E o cuitelinho não gosta
Que o botão de rosa caia, ai, ai
Ai quando eu vim
da minha terra
Despedi da parentáia
Eu entrei no Mato Grosso
Dei em terras paraguaia
Lá tinha revolução
Enfrentei fortes batáia, ai, ai
A tua saudade corta
Como aço de naváia
O coração fica aflito
Bate uma, a outra faia
E os óio se enche d’água
Que até a vista se atrapáia, ai…

A editora Cosac Naify acaba de publicar o primeiro volume da obra O Romance, editado pelo teórico da literatura Franco Moretti. Moretti é desses autores que combinam rigor acadêmico e a preocupação de ser entendido pelo público não especializado. Para ele, a literatura é um elemento chave para compreender processos sociais, históricos e culturais e, por isso, umas das tarefas da teoria literária seria ampliar o escopo dos cânones particulares de sociedades e épocas particulares. A proposta da obra O Romance – que, na edição italiana original, se estende por cinco volumes – tem uma confessada intenção enciclopédica: recobrir a história desse gênero literário que recobre mais tempo e espaço do que convencionalmente se imagina; nas palavras do próprio Moretti, um gênero milenar, proteiforme e planetário.

Capa da edição italiana de O romance

Capa da edição italiana de O romance

No primeiro volume, “A cultura do romance”, destaque para os textos de Christa Burger sobre escrita feminina, do próprio Moretti sobre romance e “seriedade” e de Steven Johnson, “Complexidade urbana e enredo romanesco”, que inspirou o breve texto que escrevi sobre conto do Alê Casatti.

Capa do primeiro volume da edição brasileira

Capa do primeiro volume da edição brasileira


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