Fiquei muito chateado com a morte do Pena Branca. Junto com seu irmão e paceiro, Xavantinho, ele foi dos últimos músicos que fez carreira gastando sola de sapato pelo interior do Brasil. Interpretavam a música caipira com uma suavidade e com a cara alegre que é bem típica de quem mora na roça. Gente que mesmo quando dá notícia ruim, fala com placidez e dignidade.

Além disso, Pena Branca era a história da música caipira personificada. O homem negro que adotou nome de índio em Uberlândia, no interior mineiro – perto do paulista, do goiano – que certamente viveu com intensidade a variedade de ritmos que foram criados na roça brasileira.

A diversidade tem uma ligação profunda com a mistura cultural que aconteceu ali entre negros, índios e brancos que criou o modelo do homem caipira. E que se organizou como estereótipo cultural pra virar produto radiofônico.

Mesmo com uma carreira que começou na Rádio Educadora em Uberlândia, Pena Branca e Xavantinho eram visceralmente pessoais em sua interpretação. É difícil ouvir as músicas que eles cantam (de autoria de Xavantinho ou não) e não pensar na forte carga biográfica, na vivência com que as palavras são cantadas sem nenhum traço de cerimônia.

É na música que a vida dos personagens da roça – que vivem sob forte preconceito e desigualdade social – é celebrada e que seu dia-a-dia é registrado como expressão histórica. Nessas horas, eu penso o quanto se reduz a expressão da cultura negra no Brasil, ao identificar a criação musical negra no Brasil só com o samba, o candomblé ou com as expressões black da música pop, a partir dos 70. A música negra brasileira é muito mais, é quase tudo que foi feito por aqui.

Xavantinho já tinha ido em 99, só tinha 57 anos, Pena Branca vai com apenas  71. Brasil vai ficar com saudade. Um pouco deles no Programa Ensaio de 1991:

Eles cantando a bela Cuitelinho (que não é de Sergio Reis e nem de Almir Sater).

E o Cálix Bento junto com o Renato Teixeira

O Plano Nacional de Banda Larga tem tudo pra se tornar o próximo palco de batalha midiática no Brasil. Lula defende que levar a internet em alta velocidade a 90 milhões de brasileiros é missão do Estado. O anúncio foi feito em primeira mão no twitter de Marcelo Branco, principal organizador da Campus Party, e  provocou um salto de 20% nas ações da Telebrás, contestações sobre o procedimento de se divulgar uma reunião presidencial por twitter e fez as empresas privadas fazerem biquinho.

A especulação é antiga, mas Lula disse que finalmente o terreno está pronto pro investimento estatal. A coluna do Silvio Guedes Crespo, no site do Estadão, aponta três principais motivos para essa decisão do presidente:

Uma é que o governo quer que o preço da banda larga caia 70%; outra, que as classes C e D tenham acesso à internet rápida; por fim, que a meta do governo é atingir 4.238 municípios até 2014.

A internet no Brasil é mesmo cara, lenta e chega a poucas pessoas. A distribuição do serviço aumenta a desigualdade social gigante por aqui. Mesmo com o barulho em torno da nova classe média, do acesso de bens de consumo a banda larga continua longe das cidades menores e mesmo da periferia das metrópoles. O setor privado lucra muito, mas reclama das dificuldades.

Os grupos de telecomunicações no Brasil são mesmo engraçados. Desde a década de 90, o setor se consolidou como um dos monstros de influência na política e na economia nacional e por trás do interesses desse setor se escondem personagens como Daniel Dantas, Carlos Jereissati e outras peças de muita influência e que não fazem nada bem pro país. Qualquer sinal mínimo de concorrência, faz as companhias se mobilizarem para não deixar a chama do oligopólio morrer.

O último exemplo disso foi a compra da GVT pela Telefônica. O serviço ficou mais concentrado em menos donos. Enquanto isso, banda larga popular que é bomnão tem data pra começar…

Com a entrada da Telebrás como player provavelmente a briga começa pra valer. Primeiro é saber se o governovai mesmo entrar na jogada ou se vai afinar. Os sinais do Lula parecem bem favoráveis a entrada da Telebrás na jogada. Na mensagem de abertura do Congresso Nacional lida por Dilma Roussef aos deputados, o Plano Nacional de Banda Larga foi a única medida particularizada pelo texto presidencial.

O presidente da República e mais seis ministros se reuniram pessoalmente com os representantes da sociedade civil e mandou a secretária-executiva da Casa Civil, Erenice Guerra, se reunir com os empresários. Deixou clara a sua disposição política de atuar não só como regulador, mas também como competidor e agilizar de uma vez por todas a situação. A única iniciativa relevante nesse sentido é o Programa Banda Larga nas Escolas, que levou conexão rápida à internet a dois terços das escolas públicas urbanas do país.

Para variar a iniciativa no Brasil nunca é privada.O papel da Anatel e do Ministério das Comunicações nessa lentidão é claro. Ao invés de estimular a competição, regular os preços e cobrar melhoria da qualidade da telefonia, a agência trabalhou pela oligopolização do setor e sufocou as tentativas de criação de um novo pólo concorrencial. Até que a necessidade bateu na porta.

A falta de acesso compromete o desenvolvimento econômico do país. O acesso à rede é um dos trunfos de indianos e chineses pra internacionalização de produção. É o outsourcing de produtos e serviços que garantiu a internacionalização dessas economias e o acesso às tecnologias que elas se apropriaram e reproduziram em seus sistemas produtivos.

Além disso, é só com o acesso generalizado da população à banda larga que o brasileiro pode se apropriar de todas as ferramentas tecnológicas e começar a criar, cobrar transparência do governo de maneira mais organizada e ter mais acesso à informação e a canais diretos com autoridades, empresas etc.

Provavelmente, muita briga vai correr solta contra a iniciativa partir do Estado, a imprensa já tem se mostrado assustada nesse sentido e já dá os seus faniquitos. É a medida mais importante do governo para esse ano e uma das poucas com relevância para um salto social e econômico, espero que o lobby empresarial e a ideologização eleitoreira da imprensa não comprometam.

A crise de 2008 reavivou, tanto aqui quanto lá fora, a discussão sobre o papel do Estado na economia. Curiosamente, muitas das conclusões a que políticos, especialistas e palpiteiros em geral têm chegado soam como velha notícia para países como o Brasil. Não que não tenhamos tido, nos anos 1990, o nosso quinhão de desregulamentação, privatização e retração da capacidade de ação do Estado, nesse setor e em muitos outros – o que se convencionou chamar, de forma muito pertinente, de “neoliberalismo”. A essas características, hoje até os menos à esquerda tendem a acrescentar: aumento da desigualdade e pobreza, precarização das relações de trabalho, aumento do estado policial, desmonte, onde isso existia, de políticas sociais universais. Mas nos últimos anos, e bem antes da crise, a forma de ação do estado brasileiro na economia tem se mostrado criativa e eficiente.

No que diz respeito à atuação do Estado na economia, o governo brasileiro tem dado lições importantes a quem quiser escutar. Principalmente por meio do BNDES, o Estado brasileiro parece ter largado mão tanto de seu apetite autoritário e incompetente que caracterizou o regime militar quanto de sua timidez – essa sim, caipira – e subserviência típica dos anos de esterco do neoliberalismo tupiniquim.

Três frentes de atuação parecem estar no centro da pauta: pesquisa e desenvolvimento, consolidação setorial e expansão da presença de empresas brasileiras no exterior – e não apenas como exportadoras, mas também na aquisição de outras empresas do mesmo ramo.

O Ministério da Ciência e Tecnologia, por meio da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos), tem oferecido subvenções a empresas que queiram (“queiram”, pois, se estamos falando de capitalismo, o investimento em pesquisa é crucial) investir em P&D. Cristiano Romero escreveu na sua coluna do jornal Valor Econômico de quarta-feira (03/02):

De lá para cá [desde o lançamento do programa, em 2006], a demanda tem sido crescente. No total, chegou a 8.890 projetos, dos quais 791 foram aprovados, a um custo de R$1,5 bilhão aos cofres públicos. Neste ano, serão liberados mais R$600 milhões.

O colunista ainda diz que “na gestão do presidente Luciano Coutinho, o banco passou a considerar inovação tecnológica um dos critérios da análises dos pedidos de crédito”. A crise não abalou essa prioridade. Os recursos do MCT cresceram 506% nos últimos 11 anos, e baterão recordes em 2010. Em suma, os “gastos” públicos têm sido cruciais para o aumento do investimento total em P&D no Brasil nos últimos anos.

Na segunda frente, o caso da Braskem, que envolve a Petrobras, é o mais notório. Mas a parceria entre o BNDESPar e a empresa brasileira de software Linx, relatada também no Valor, no mesmo dia, é um outro caso que ilustra essa atuação do Estado brasileiro. Especializada em sistemas de gestão para o varejo, a empresa recebeu um aporte do BNDESPar, o braço de investimento do BNDES, comprou concorrentes e se consolidou no mercado. Longe de criar um monopólio, e com uma participação minoritária, o BNDES viabilizou a expansão da empresa num momento em que o varejo, com o aumento do consumo, também vê no horizonte um período de expansão – que o digam Diniz e Klein, que estão mordidos com o CADE não deixar eles brincarem de Wal-Mart. A empresa pode desenvolver musculatura suficiente para disputar o mercado.

Por último, o BNDES tem relaxado as dificuldades que eram impostas a empresas brasileiras que quisessem adquirir empresas estrangeiras, com medo do fantasma da fuga de capitais (que já não é tanto motivo de pavor, hoje). Segundo Raquel Balarin no Valor – dessa vez, no de hoje – está em curso uma “onda” de aquisições no exterior por empresas brasileiras. De novo, papel importante do BNDES. Cito um parágrafo inteiro:

O governo – em especial o BNDES – está atento à necessidade de apoio à internacionalização das empresas brasileiras. Embora as iniciativas ainda sejam tímidas frente ao arsenal de que dispõem companhias de outros países, estão na direção correta, segundo avaliações de analistas. O banco presidido por Luciano Coutinho, por exemplo, está criando uma estrutura para poder financiar diretamente as companhias brasileiras no exterior, sem a necessidade de que os recursos sejam trazidos ao país. O estatuto do banco teve de ser alterado para que isso fosse possível. Até o início da década, o BNDES tinha restrições e exigia que as empresas apresentassem um crescimento de exportações como contrapartida aos financiamentos para nacionalização.

Esse tipo de discussão, eu acho, ajuda a desfazer a névoa das acusações de “inchaço” e  “gastança” (para deixar de lado a cretinice mais mal intencionada do “aparelhamento”) do Estado durante o governo Lula, mais do que a comparação confusa da linha de “total” dos livros-caixa dos governos.  Hoje qualquer bobo sabe que, no caso de um Estado, e ao contrário do que vale para o bolso dele, o critério principal dos gastos públicos é “como”, e não “quanto”. Uma política econômica ativa e pró-desenvolvimento (e não passiva e estagnante) é tão importante quanto políticas sociais com qualidade e escala (e acesso universal). A qualidade de vida de uma população é proporcional ao naco do PIB que é gasto com as coisas públicas. Os suecos que o digam – até o cinema pornô deles é de primeira linha.

Neoliberalismo: gastos públicos excessivos e ineficientes, mal aplicados.

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Faz mais de uma década que eu não escutava os grupos deste grande músico da Nova Zelândia. Nos anos noventa, o This Kind of Punishment e o Peter Jefferies solo ficavam nos ouvidos da meninada. Hoje bateu a saudade, procurei coisas aqui e ali. Achei vídeos e páginas legais. Divirtam-se com duas músicas.

TKP: “Diary of Hermann Doubt” e “The Horrible Tango”

Lauro no Guaciara, por Eugenio Vieira (http://www.flickr.com/photos/eugeniovieira/1489937782/in/set-72157603725940046/)

Como eu demorei para escrever o post comemorativo de um ano do blog, fica  aqui a homenagem aos grandes amigos que tocam o site comigo e que passam por aqui.

Não sei como era a temperatura do lugar onde os pioneiros do paleolítico resolveram se refugiar. Devia ser brabo. Eles precisaram esconder-se nas fendas que se abriam no chão e nas pedras: tal como cavernas, grutas e gargantas.

Neste mês deste ano, prefiro elaborar o raciocínio não nos termos do que aprendi com a paleontologia, arqueologia, em textos vagabundos de história da civilização ou no livro do Lewis Mumford, mas a partir da minha experiência com a caricatura americana: dos Flinstones e do Elo Perdido. Inventar como o pessoal da época devia inventar naqueles desenhos que deixavam na pedra, só para render um papo.

Por isso, parece legal supor que eles fugiam de um calor tal como o que fez no Rio de Janeiro nos primeiros dias do primeiro mês do ano. Com a pele castigada pelo sol, não dava para continuar atrás daqueles mamíferos gigantescos, de subir em árvore, de bater perna por aí. Melhor entrar em algum lugar mais ameno, com sombra, lugares para encostar e  água fresca.  Ficar por lá, conversando fiado, emitindo sons e tentar conhecer outros nômades que estavam por lá.

Lá dentro do buraco, em um determinado momento, o pessoal resolveu contar o que aconteceu com eles. Falar o que ocorria com quem vinha do leste para o oeste para quem ia do sul para o leste. Registrar algumas coisas e, assim, eles  criaram algo maior que a linguagem, maior que a cultura: algo como o que faríamos com a história bem recentemente.

Porque não se devia apenas contar e marcar o que acontecia de um lado para o outro, mas alimentar a imaginação e, coerente no meu anacronismo, alimentar a conversa e um universo de imagens e linguagens compartilhadas que quem passasse por lá podia levar adiante. O lugar tornava-se um monumento. Um lugar para se estar.

A idéia do blog teve muito a ver com esses desenhos e registros em cavernas. Quando o Lauro propôs a idéia para os moradores originais, o que eu achei mais legal foi a possibilidade de deixar coisas por aqui e as pessoas poderem olhar e conversar. Falaríamos sobre tudo com os nossos amigos e com gente que nós nem conhecemos.  O Guaci sempre foi um lugar para se estar. Um lugar melhor que qualquer outro que eu havia morado desde que cheguei em São Paulo.

Quando me mudei para o prédio pensei, pronto, agora dá para fazer festa, para combinar outras coisas e até para inventar um pouco, como eu fazia lá em Pouso Alegre. Sobretudo por estar com o Lauro e o Jay, depois com o Demétrio, o Alê, o Marcão e o Ede: os meus chapas.

O Guaciara sempre foi um lugar muito gregário. Onde os amigos podem fugir das piores roubadas ou aparecer nos momentos em que ninguém tem nada o que fazer. Não custa lembrar que, pra cá, já veio gente que separou da mulher (ou do marido) e que a casa caiu (como ele mesmo afirma, em todos os sentidos). Muita gente do Brasil e do mundo se hospedou aqui quando veio para São Paulo.

Mas o Guaci acabou entusiasmando as ambições de alguns dos moradores. Já tentamos desdobrá-lo em sessões periódicas de filme, em uma coleção audiovisual e em um lugar para festas improvisadas, inventar histórias e rirmos de nós mesmos. De tudo o que inventamos, o que deu mais certo foi o blog.

Nele, aprendi uma porção de coisas. Embora 2009 tenha sido um ano muito movimentado, conseguimos conversar uma porção de assuntos e apresentar uma porção de coisas que nós gostamos para os outros.

Isso fez um bem danado para mim, justo na época em que tinha menos tempo para conviver com os outros. Mas, ao menos, conseguia alimentar uma ilusão quase doentia que tenho, que eu faço algo que melhora a minha vida e a dos outros.  Não tenho muita vocação política e sei que a política institucional tem seus limites. O jeito que arranjei para me iludir foi mostrar as coisas que eu gosto para todo mundo. Mas sem exibicionismo e nem pouca vergonha.

Embora esses meios eletrônicos tenham algo de trágico na aproximação das pessoas, pois dizem que esse espaço na vida concreta é cada vez mais reduzida, acho que é e será muito legal ter esse blog. Conheci muita gente e assuntos que eu não tinha a menor idéia. Mostrei idéias que eu escondia e textos que estavam esquecidos. Só posso agradecer.

Clique aqui e defenda o PNDH

Continuo um pouco a onda da egotrip Guaciara para conversar sobre um fenômeno muito interessante que aconteceu no blog recentemente. Como vocês viram no meu post anterior, o maior sucesso aqui é um texto chamado Depois da Ditabranda. Até dois meses, essa discussão não estava nem entre as dez favoritas do Gua Gua.

Eis que o termo mais procurado entre os que chegam aqui via buscadores, como o Google,virou “guerrilheira dilma roussef” no final do ano passado. Acho que isso tem muito a ver com três tópicos que andam (ou andaram) bem em voga pelo Brasil recentemente.

Um é a contestação a qualquer Conferência Nacional. Já tratei do tema aqui antes, mas o novo tópico é que esses grandes eventos – comuns no Brasil desde a redemocratização e dinamizados depois da ascensão do PT ao poder – são um reduto da esquerda “radical e imprudente”. São um local de expressão de imprecisões e de visões exóticas da sociedade.

É o típico comentário de quem nunca pôs o pé nessas conferências. Na verdade, o evento reúne gente necessariamente envolvida em uma causa, em uma questão pontual. Por isso, reúne especialistas no tema. Gente interessada em construir políticas públicas bem delimitadas. Muitas vezes, a presença desse público necessariamente qualificado e interessado estimula o boicote de quem se põe acima da sociedade.

E é verdade, em vários desses fóruns há um ponto em comum: as grandes indústrias de comunicação desfavorecem as culturas locais; trabalham em favor de poderosos e antigos grupos políticos, principalmente nos municípios e cidades com economia mais pobre e menos diversificada; e, terminantemente, defendem um ponto de vista que só tem o o objetivo de fazer o capital delas crescerem.

Nada mais justo para uma empresa capitalista, mas a sociedade tem o dever de fiscalizar esse comportamento para que ele não se torne um canal privilegiado de geração de lucro, de construção de poder e de delimitação das expressões culturais. Pergunta pra um americano que gosta de música independente ou de uma programação radiofônica menos careta o que os Clear Channel da vida fizeram com as cenas musicais nos Estados Unidos?

E eis que qualquer diálogo em favor da construção de um marco regulatório para um setor da economia se tornou pretexto para o escândalo. Uma gritaria que necessariamente se converte na criação de um novo personagem eleitoral que tem muito a ver com a pecha de “baderneiro”, “grevista”, “bagunceiro” que os militantes do PT carregavam até 2002 – a do petista como guerrilheiro stalinista, que quer impôr um novo regime ao gigante verde e amarelo.

Como disse um amigo meu outro dia, “não é possível que esses caras não dêem umas risadas ao escrever essas matérias sobre controle social da mídia. O governo Lula não consegue aprovar nem a prorrogação da CPMF. Queria ver se fosse antidemocrático.”

E essa não tão nova pecha de “terrorista de esquerda”  me leva para o segundo assunto. Em artigo publicado na última edição da Novos Estudos, do Cebrap, o cientista político André Singer defende que Lula com os programas sociais, os créditos de moradia e a elevação do salário mínimo conquistou um eleitorado arredio a qualquer tipo de coisa como greves, guerrilhas ou simples movimentos de esquerda. São pessoas mais pobres, fora dos movimentos sociais, necessariamente desorganizadas que gostam das mudannças sociais sem sobressaltos na ordem.

O que o ex-porta-voz de Lula defende é que o presidente conquistou uma nova base social que combina conservadorismo político com uma posição favorável às políticas sociais. E aí é que a oposição vem testando um discurso.

O subtexto é que Dilma Roussef não é uma gestora pública qualificada, mas uma “terrorista”. Muitas vezes, quem lê os jornais acredita que todos inimigos da ditadura militar nada mais eram que versões brasileiras e maconheiras do Bin Laden, em uma inversão de valores que eu acho cada vez mais perigosa. E isso faz a gente voltar às Conferências Nacionais e essencialmente ao 3º Plano Nacional de Direitos Humanos.

A festa dos conservadores brasileiros (principalmente na imprensa) com a vitória de Sebastián Piñera e seu grupo pinochetista no Chile só reforça essa posição de que “os inimigos do militarismo são uns arruaceiros”. Antes disso, os grupos empresariais de mídia e a oposição já tinham mostrado seu pouco apreço à democracia defendendo o golpe autoritário de Honduras.

É bom lembrar que em 2002, ao chamar Lula de analfabeto, e em 2006, ao acusar o Bolsa-Família como esmola, a oposição não mais fazia do que ofender indiretamente uma boa parte da população brasileira, que tinha vivido sob os mesmo padrões do presidente e que era beneficiada pelos programas sociais do governo do PT.

Para eles interessa uma revisão bizarra da ditadura militar, em que não se diferencia a resistência dos torturadores. Em que a política de repressão é justificável. O pior é que tudo é feito em nome de uma falsa manutenção da Lei da Anistia, falsa por que nunca ninguém propôs em se romper com a legislação.

Chamar o desejo mais do que legítimo de se conhecer a história de vingança, é o que esse grupo quer. Por que o que interessa eles é uma verdade seletiva que exclui, necessariamente, a luta pela democracia do horizonte da oposição à ditadura militar. Todos se igualam aos orangotangos da tortura e da violência repressiva de Estado do governo militar. É isso que defendem os historiadores, geógrafos e “especialistas” de estimação dos patrões da imprensa.

A polêmica do PNDH, como já mostrou o nosso chapa Raphael Neves, acabou demonstrando a incapacidade da minoria da oposição de aceitar resultados democráticos e como isso é comprometedor para a realização dos princípios mais básicos que constituem a república brasileira.

Ainda não sei qual pode ser o efeito disso nas urnas no final do ano, mas na história do Brasil, sem dúvida, essa requalificação de um regime violento, excludente, incompetente e assassino nada mais é do que um insulto.

Acho que já disse, aqui mesmo, e a idéia provavelmente não é minha, que depois dos 30 dá para começar a falar de si mesmo sem parecer muita afetação. Então vou aproveitar o aniversário do blog para uma breve egotrip.

Uma característica pessoal minha, que acho que nunca vai desaparecer – luto conscientemente contra ela há uns dez anos, com sucesso localizado e errático – é uma timidez e uma insegurança além da conta.  De certa forma, com a idade a coisa simultaneamente melhora e piora: a gente vai se sentindo à vontade com algumas pessoas e situações (por incrível que pareça, por muitos anos fui professor, a profissão que me parecia menos recomendada), mas ainda assim fica o sentimento de fragilidade da nossa posição na vida em geral, uma impressão de que tudo está por um fio.

O resultado é ansiedade e uma certa mania de se esconder do mundo. Nunca me senti, nem acho que vá, totalmente à vontade com vários tipos de situações, e alguns tipos de pessoas. Lembro dos meus primeiros anos de faculdade, no curso de Filosofia da Universidade de São Paulo, em que a desenvoltura dos meus colegas me diminuía. Eles tinham lido tudo, entendiam tudo, eu não.

Mas foi lá mesmo que, por meio do meu irmão Demétrio, que fazia o curso de Ciências Sociais, fiz vários grandes amigos (eu não estava na minha época mais sociável, e me pendurava na turma do Demétrio – por várias razões, mas principalmente porque eles eram muito mais relaxados e boa-praça do que a maioria do pessoal do meu curso). Uma lista incompleta, injusta, inclui o Itaquê, Bugrão, Guga, e o Tiago.

Por meio desses caras todos, aprendi coisas importantes pracas: uma determinada postura diante da vida, principalmente, que era política mas também mais profunda, e envolvia um compromisso com as coisas e pessoas que estão em torno da gente, e com a alegria. Algo completamente diferente da abstração, profundidade e melancolia fingidas que  pareciam ser o destino dos estudantes de Filosofia.

Por meio do Tiago conheci o Lauro. À época, eles eram muito parecidos – ou eu não havia aprendido ainda a perceber as diferenças, físicas e de temperamento, dos dois. Uma das primeiras coisas que eu ouvi do Lauro foi que ele sabia que precisava ser simpático com as pessoas desconhecidas que o cumprimentavam, pois podia ser um amigo do Tiago que, confundindo ambos, se ofenderia com outra reação. Não sei se aprendi a lição, mas entendi essa maneira de colocar a simpatia meio acima de tudo – acima do próprio desconforto eventual de ser confundido com o irmão, por exemplo.

Os dois me apresentaram (e a muita gente que conheço) muita coisa ligada à música, às artes, literatura, cinema, etc., além dos papos sobre política em que os dois sempre se envolviam de forma entusiasmada. A curiosidade incansável, e a generosidade dos dois, me apresentou todo um universo artístico e, de novo, uma postura diante dessas coisas: sem frescura, sem melancolia, sem caretice (o Rafa Campos [e o Alexandre Casatti, óbvio] é outro profeta dessa idéia sobre a vida). Com os dois curti as coisas mais cabeçudas e algumas das melhores noitadas da minha vida.

Para encurtar a história, o Guaciara e a turma que orbita em torno dele foram e são coisas que me ajudaram demais, e me ensinaram muita coisa, inclusive aquelas que têm a ver com a vida mesmo. Vira e mexe eu penso nesses acasos da vida que fazem a gente conhecer pessoas que são responsáveis por  a gente levar a vida para um determinado caminho ou outro.

Acho que esse é o espírito que anima o blog, e que só num blog é possível. Num blog não tem disputa por prestígio, por estar certo, por ser mais lido, por ter mais espaço, etc. Sem auto-comiseração, eu às vezes me refiro a mim mesmo como “o policial loiro do Guaciara”. A piada é com o seriado de TV “CHIPS”, dos dois motoqueiros da polícia da Califórnia: todos lembram de Frank Poncerello, o policial latino, mas ninguém lembra do Joe Baker, o policial loiro. A culpa é minha, porque sou menos ativo mesmo (estou fora do top ten do blog, podem conferir). E a energia dos dois é, convenhamos, difícil de acompanhar.

Depois de passada a turbulência desse começo de ano, prometo voltar à ativa. Policial Joe Baker de volta à estrada.

Poncerello e seu parceiro Baker: "Vamos até ali tomar uma?"

Só ganha bolo quem vier me visitar em Brasília!

Já estamos atrasados em uns dez dias ou mais, mas, para quem não sabe, o Guaciara acaba de comemorar um ano de estadia na Internet! Como está escrito na nossa página explicativa, o blog começou num apartamento lá na Zona Oeste de São Paulo em que eu, o Tiago e o Joaquim morávamos.

O Tiago continua lá. Gente boa que escreve aqui como o Demétrio Toledo e o Ale Casatti também já morou nesse edifício maravilhoso e descontraído que tem o mesmo nome do blog, assim como o Marcos Gerez e o Edmundo Clairefont.

Teve muita gente (muita mesmo) que praticamente morou lá de tanto tempo que passava e ainda passa trocando idéia, matando o tempo, curtindo de montão. O mais bonito do Guaci é que sempre foi uma casa aberta onde as pessoas todas se encontravam. E eu acho que por isso que a idéia do blog deu tão certo. O procedimento é mais ou menos parecido: quem quiser entrar, entra; quem quiser falar, fala.

O Tiago nesse sentido é o cara que colocou isso muito forte pra gente. O fera não tem medo nenhum de defender as idéias dele e de mostrar o monte de coisas que ele adora conhecer por aí. Muita coisa que parece muito importante pra nós, às vezes nem tem tanta importância pro resto do mundo, mas não falta disposição dos três guaciáricos de mostrar isso pro mundo.

O Jay, desde que eu conheço ele, foi um dos caras que mais me mostrou coisas pra ler e apresentou idéias novas sobre o mundo. Sempre muito refletido e consistente.

E o Rafa Campos – o George Martin do Guaci – é um gênio, quanto mais conheço, mais eu sou fã.

Esse monte de gente é o que me deixa mais feliz no blog. O espaço reúne um pessoal massa que não deixa a cabeça parar de funcionar e de me mostrar coisas novas. Valeu todo mundo!

E só para a informação dos leitores, o top 10 dos posts mais lidos no ano :

1 Depois da Ditabranda…

2 Sala especial

3 Confetes

4 Picasso, Duchamp, Warhol e a idéia de transformação na arte moderna

5 Arte contemporânea japonesa, eros e a civilização no shopping

6 O ódio ao Brasil

7 Godard, Glauber e o Vento do leste, por Mateus Araújo

8 Copan, por Carlos Teixeira

9 Uma explicação da gripe suína, por Marcos Mesquita Filho

10 O ano Mira Schendel

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